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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Conceitos básicos de Antropologia e Sociologia

Ferramentas para pensar

SOCIEDADE:

organização humanamente fundada ou sistema de inter-relações que articula indivíduos
numa mesma cultura. Todos os produtos da interação humana, a experiência de viver
com os outros em torno de nós. Os humanos criam suas interações e uma vez criadas, os
produtos dessas interações têm a capacidade ou o poder de reverter sobre os humanos a
fim de determinar ou limitar ações. Com freqüência, experimentamos a sociedade
(organização humanamente fundada) como algo externo aos indivíduos e às interações
que a fundam.

PRODUTOS DA INTERAÇÃO HUMANA – COMPONENTES DA SOCIEDADE

CULTURA:

conjunto de tradições, regras e símbolos que dão forma a, e são encenados como,
sentimentos, pensamentos e comportamentos de grupos de indivíduos. Referindo-se
principalmente ao comportamento adquirido, por oposição ao dado pela
natureza ou pela biologia, a cultura tem sido utilizada para designar tudo o que é
humanamente criado (hábitos, crenças, artes e artefatos) e passado de uma geração a
outra.

Nessa formulação, a cultura distingue-se da natureza e distingue uma sociedade da
outra.

LINGUAGEM:

um sistema de símbolos verbais através dos quais os seres humanos comunicam idéias,
sensações e experiências. Por meio da linguagem estes podem ser acumulados e
transmitidos através das gerações. A linguagem não é somente um
instrumento ou um meio de expressão, ela também estrutura e molda nossas
experiências do mundo e o que observamos ao nosso redor.

VALORES:

idéias que as pessoas compartilham sobre o que é bom, mau, desejável e
indesejável. Normalmente eles são muito gerais, abstratos e transcendem variações
situacionais.

NORMAS:

regras comportamentais ou padrões de interação social. Em geral derivam
dos valores, mas podem também contrapor-se a eles, e servem como guias para
julgamento dos comportamentos individuais. As Normas estabelecem expectativas que
dão forma às interações.

“Cultura. Aqueles padrões de significado que qualquer grupo ou sociedade utiliza para
interpretar e avaliar a si próprio e sua situação.” Bellah e outros, Habits of the Heart
1985:333

“Cultura. Um sistema adquirido e duradouro de esquemas de percepção, pensamento e ação,
produzidos por condições objetivas, mas tendendo a persistir mesmo após
uma alteração dessas condições.” Bourdieu, The Inheritors. 1979.

“Hábitos. Um conjunto de relações históricas ‘depositadas’ no interior dos corpos individuais
sob a forma de schemata mentais e corpóreos de percepção, apreciação e
ação.” Bordieu

“Cultura. O que significa agir segundo a própria cultura é, de modo geral, seguir as próprias
inclinações assim como foram desenvolvidas pela aprendizagem com outros membros da própria
comunidade. Hannerz, Soulside,
1969:177.

“Cultura. Refere-se ao repertório aprendido de pensamentos e ações, exibidos por
membros de grupos sociais – repertórios [transmitidos] independentemente da
hereditariedade genética de uma geração à outra.” Harris, Cultural Materialism,
1979:47

“Cultura. Veículos simbólicos de significado, incluindo crenças, práticas rituais,
formas de arte, cerimônias, bem como práticas ... informais, tais como a linguagem, a
o boato, histórias e rituais da vida diária.” Swidler, “Culture in Action”, 1986:273

“Cultura. O cultural é a elaboração criativa, variada, potencialmente transformadora de algumas
relações sociais/estruturais fundamentais da sociedade.”
Willis, Learning to Labor. 1977:137

ORGANIZAÇÃO SOCIAL:

O arranjo das partes constituintes da sociedade, a organização de posições sociais e a
distribuição de indivíduos nessas posições.

STATUS: nichos e posições socialmente definidos (aluno, professor,
administrador).

PAPEL: cada status porta um feixe de comportamentos esperados: como uma
pessoa naquele status deve pensar, sentir, assim como as expectativas sobre
como devem ser tratadas por outras. O feixe de deveres e comportamentos
esperados que se fixou num padrão de conduta consistente e reiterado.

GRUPO: duas ou mais pessoas interagindo regularmente com base em
expectativas comuns sobre o comportamento dos outros; status e papéis inter-relacionados.

INSTITUIÇÕES: padrões de atividade reproduzidos através do tempo e
espaço. Práticas repetidas de forma regular e contínua. As instituições tratam
com freqüência dos arranjos básicos de vivência que os humanos elaboram nas
interações uns com os outros e por meio dos quais a continuidade através das
gerações é alcançada. Os blocos básicos de construção das sociedades. As
instituições sociais são como edifícios que vão sendo constantemente
reconstruídos pelos próprios tijolos de que são feitos.

ESTRUTURA SOCIAL:

A estrutura refere-se ao padrão numa cultura e a organização através da qual a
ação social tem lugar; arranjos de papéis, organizações, instituições e símbolos
culturais que são estáveis ao longo do tempo, muitas vezes despercebidos, cuja
mudança é quase invisível. A estrutura tanto permite quanto restringe o que é possível
na vida social. Se um edifício fosse uma sociedade, as fundações, as colunas de suporte
e as vigas seriam a estrutura, que tanto constrangem quanto permitem os vários
arranjos espaciais e os tipos de ambiente (papéis, organizações e instituições). Schemata
e recursos (materiais e humanos) através dos quais as ações sociais têm lugar, são
padronizados e institucionalizados. Incorporam tanto a cultura quanto os recursos da
organização social.

Estrutura social. O conjunto organizado de relações sociais no qual os
membros da sociedade ou do grupo estão diferentemente implicados. Comportamento
e relações padronizadas. “Arranjos padronizados de conjuntos de
papéis, conjuntos de status e seqüências de status podem ser mantidos para
compreender a estrutura social.” Merton, Social Theory and Social Structure, p. 370.

“Estrutura Social. Arranjos padronizados de conjuntos de papéis, conjuntos de
status e seqüências de status conscientemente reconhecidos e em operação sistemática
numa determinada sociedade, intimamente ligados às normas, políticas e sanções legais.”
Turner. Drama, Fields and Metaphors, 237.

“Estrutura Social. Sistemas relativamente estáveis de relações sociais e
oportunidades nas quais os indivíduos se encontram e por meio das quais são
vitalmente afetados, mas sobre as quais a maioria não tem controle e cuja natureza exata
normalmente desconhece.”
Greenfield. Nationalism, pág. 2.

DESIGUALDADE:

ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL: a divisão sócio-econômica da população em
camadas ou estratos. Quando falamos em estratificação social, chamamos
atenção para as posições desiguais ocupadas pelos indivíduos na sociedade. Nas
sociedades tradicionais de grande porte e nos países industrializados de hoje, há
estratificação em termos de riqueza, propriedade e acesso aos bens materiais e
produtos culturais.

RAÇA: um grupo humano que se define e/ou é definido por outros grupos
como diferente...em virtude de características físicas inatas e imutáveis. Um
grupo socialmente definido com base em critérios físicos.

ETNIA: práticas culturais e pontos de vista de uma determinada comunidade,
pelos quais se diferenciam de outras. Os membros de grupos étnicos vêem a si
mesmos como culturalmente distintos de outros grupos da sociedade e são
vistos como tal pelos outros grupos. Muitas características diferentes podem
distinguir os grupos étnicos uns dos outros, porém, as mais comuns são a
linguagem, a história ou a ancestralidade – real ou imaginada, a religião e os
estilos de vestuário. As diferenças étnicas são completamente adquiridas.

Antropologia Simbólica, Comunicação e Educação

A antropologia simbólica é relativamente recente e dos seus praticantes destacaremos Clifford Geertz, David Schneider e Victor Turner, que, apesar das divergências teóricas que os separam, defendem a concepção da cultura como sistema de símbolos e de significados partilhados. Detecta-se aqui uma influência linguística, mas sobretudo a influência da hermenêutica filosófica, tal como praticada por Hans-Georg Gadamer, e da filosofia das formas simbólicas, tal como exposta por Susanne K. Langer, portanto, uma forte influência da filosofia contemporânea. Esta influência parece indicar que os chamados cientistas sociais, depois de terem conquistado a sua independência da Filosofia, não conseguiram criar paradigmas teóricos autónomos, e, por isso, tendem a anexar as teorias filosóficas, como se estas fossem um território das «ciências» que dizem praticar. Esta é a maior ilusão das ciências sociais que as impede de reconhecer que, afinal, são ciências sem um objecto específico.


DAVID SCHNEIDER. Schneider define a cultura como um sistema de símbolos e dos seus significados: «Cada cultura concreta (...) é formada por um sistema de unidades ou partes que são definidas de um certo modo e que se diferenciam entre si de acordo com determinados critérios». Estas «unidades» ou «constructos» definem, ao mesmo tempo, o mundo e o sistema de coisas que existem no seu seio. Na cultura americana, unidades tais como "tio", "cidade", "deprimido", "homem", a ideia de progresso, a esperança e a arte, são constructos culturais, dotados de uma realidade própria que não depende da sua existência objectiva. Assim, por exemplo, ao nível deste tipo de análise cultural, os espíritos dos mortos e os próprios mortos são constructos culturais independentes do comportamento real e observável.
No seu estudo do sistema norte-americano de parentesco, Schneider interessa-se pelas definições das unidades e das regras do parentesco norte-americano, sem levar em consideração o comportamento real e observável dos parentes entre si. Admite que a preocupação pelas relações existentes entre constructos culturais e comportamentos é perfeitamente legítima, mas, dado que os comportamentos não fazem parte da cultura tal como a concebe, o antropólogo pode ignorá-los.
O objectivo de Schneider é estudar a cultura como um sistema coerente de símbolos e significados, para poder estabelecer: 1) o núcleo simbólico de cada sistema cultural estudado, se este existir; 2) como se relacionam sistematicamente entre si os sentidos das diversas partes, se tal relação existir; e 3) como se diferenciam e articulam entre si, como unidades culturais, as diversas partes, se tal for o caso. Ao isolar a cultura dos comportamentos reais e tratá-la como um todo específico, Schneider limita-se a determinar a cultura que estuda a partir do que os informantes dizem sobre as suas próprias vidas.
Harris e Lewis argumentam que, ao aceitarmos a máxima de que «não importa o que as pessoas fazem, mas sim o que dizem», teríamos de relegar os resultados da antropologia para o reino da incoerência. No seu estudo sobre a cultura do chabolismo (slums) norte-americano, Oscar Lewis destaca os perigos de semelhante abordagem: «Muitos dirão que o matrimónio legal ou eclesiástico, ou ambos ao mesmo tempo, são a forma ideal de matrimónio; mas poucos são os que se casam». Embora a abordagem de Schneider não seja adequada para estudar a cultura no seu conjunto, dado o seu idealismo cognitivo extremo, a sua preocupação básica pelas unidades e pelas regras culturais ajuda, pelo menos, a elucidar a componente cognitiva da cultura.
CLIFFORD GEERTZ. Geertz procurou abolir a dicotomia mente-corpo. A sua preocupação incide fundamentalmente sobre a acção simbólica e o uso que os homens fazem dos sistemas simbólicos. Considera a cultura como «um conjunto de mecanismos de controle — planos, receitas, regras, instruções», que guiam e cimentam aqueles aspectos da humanidade que se expressam na cultura. Esta humanidade encontra-se não só nas propriedades essenciais ou na estrutura de cada cultura em concreto, mas também nos diversos tipos de indivíduos que existem no interior de cada uma delas, o que implica estudar em detalhe as vidas sociais desses indivíduos.
Contudo, Geertz começou a tratar a cultura dos povos que estudava como «um conjunto de textos, que formam conjunto eles próprios» e que o antropólogo deve interpretar como se se tratassem de textos literários. Porém, estes textos incorporam actividades sociais quotidianas de pessoas que estão implicadas numa acção simbólica e não somente num sistema ideacional abstracto. Por exemplo, ao aplicar este tipo de abordagem à luta de galos balineses, «uma obsessão popular para consumir poder», Geertz interpreta-as como «expressão de algo que choca directamente com o modo de vida dos espectadores, e inclusivamente com o seu modo de ser». As lutas de galos reúnem coisas tais como o selvagismo animal, o narcisismo masculino, a concorrência de apostas e a rivalidade de status, ligando-as entre si mediante um conjunto de regras que expressam os sentimentos destrutivos subjacentes à aparência de tranquilidade com que os balineses têm logrado cobrir uma sociedade tão hierarquicamente estruturada como a sua. A cultura, neste caso, aparece dotada de um carácter instrumental no sentido mais amplo do termo, já que não só comunica determinados traços da sua própria cultura aos balineses, mas também serve para criar e manter esses traços.
VICTOR TURNER. Turner baseia o seu trabalho fundamentalmente na acção simbólica, a qual é considerada, juntamente com os sistemas simbólicos em geral, como instrumentos em sentido amplo, enquanto estão ligados a finalidades e interesses humanos. De modo complementar, mostra-se interessado pelo aspecto formal dos símbolos usados na acção simbólica. Do seu ponto de vista, este aspecto formal amplia a nossa compreensão da actividade cultural, por mais que os próprios actuantes sejam inconscientes disso, apesar de não constituir o único sentido das suas actividades, como pensam os estruturalistas e os etnocientistas. Grande parte dos seus trabalhos estão centrados no uso de símbolos durante os procedimentos rituais, sobretudo nos seus estudos sobre os ndembu da Zâmbia. Turner conclui que os símbolos usados e as suas relações «constituem não somente um conjunto de classificações cognitivas, para o ordenamento do universo ndembu, mas também, o que inclusivamente é mais importante, um conjunto de mecanismos artificiosos evocadores para fazer surgir, canalizar e domesticar emoções tão poderosas como podem ser o medo, o afecto e a dor». Estão, pois, carregados de finalidade e têm um «carácter conativo», isto é, servem para orientar a acção.
Turner começa por investigar o significado dos rituais por meio de perguntas dirigidas aos actores. Depois analisa esses símbolos para ver se pode estabelecer alguma relação formal entre os próprios símbolos e entre os símbolos e os seus referentes (o que estes representam). A seguir, procura descobrir relações estruturais entre os símbolos que compõem o conjunto estudado, ou mostrar que esses símbolos funcionam de maneira específica e limitada, seja para comunicar significados múltiplos, seja para unificar fenómenos dispares ou para condensar ideias múltiplas. Uma análise formal deste tipo aumenta a nossa compreensão do ritual, embora não constitua o único modo de descobrir o seu significado.
Turner defende uma abordagem interpretativa ou hermenêutica da cultura, centrando a sua atenção no estudo do uso concreto de símbolos em contextos concretos e por parte de indivíduos concretos. Este método de investigação é completamente distinto do dos estruturalistas e do seu interesse pelas estruturas universais ou inconscientes do intelecto humano e distinto também do interesse dos etnocientistas pelos princípios cognitivos básicos. Turner propõe uma abordagem empática do comportamento humano, colocando, em vez de um conjunto mecânico de procedimentos puramente formais, mediante os quais a cultura resulta objectivada e dissecada, a necessidade do investigador procurar captar de maneira imaginativa as actividades em questão. Com isso pretende proporcionar uma compreensão do que ocorre em determinadas situações específicas, mais do que uma formulação de relações universais e, portanto, abstractas, entre elementos culturais ou um conjunto de estruturas mentais generativas. O uso de conceitos analíticos não é completamente dispensado, mas estes convertem-se em simples meios auxiliares para levar a cabo uma tarefa central de interpretação.
A antropologia simbólica reflecte o estado de indigência das ciências sociais e a sua incapacidade para produzir novas teorias ou paradigmas teóricos, capazes de iluminar a realidade social. Esta indigência conceptual é particularmente evidente na sociologia que, após ter reclamado a sua autonomia em relação à Filosofia, se tornou excessivamente «opinativa» e delirante, procurando anexar territórios da filosofia. A situação da antropologia social era ligeiramente diferente, pelo menos enquanto podia fazer estudos de campo de povos arcaicos, mas com a descolonização os antropólogos foram forçados a regressar a casa e, sob a influência do pensamento pós-moderno, tornaram «críticos literários». Em vez de estudarem comportamentos reais, estudam textos e discursos, anexando a hermenêutica filosófica. No fundo, todos retomam as teorias filosóficas, como se estas constituissem o seu território, mas sem abdicar da pretensão de serem cientistas sociais.


Diante desta incapacidade das ciências sociais elaborarem novas teorias, sem saquear a filosofia, esta pode reclamar os seus territórios e mostrar que as ciências sociais mais não são do que ramos da própria pesquisa filosófica. Neste caso específico dos modelos simbólicos ou cognitivos, a filosofia está em condições de os repensar no âmbito de uma epistemologia comparativa, capaz de interpretar as concepções do mundo incorporadas nesses universos simbólicos ou cognitivos, sem cair na tentação do relativismo, ao mesmo tempo que pode fomentar um diálogo intercultural alargado num mundo cada vez mais global.
Anexo: A ideia que pretendia acentuar é a de que a máxima "não importa o que as pessoas fazem, mas sim o que dizem" inverte completamente o pensamento de Karl Marx, e, nesse sentido, deve ser vista como uma noção ideológica. Faz lembrar a célebre frase de Derrida: "não há nada fora do texto". As implicações desta viragem simbólica e interpretativa na comunicação e na educação são demasiado evidentes: tirania emocional da opinião, a qual já não reconhece a força dos factos e das evidências empíricas! Daí o relativismo e a anarquia que ameaçam a própria essência da democracia!

J Francisco Saraiva de Sousa