sábado, 10 de abril de 2010
Biologia - Evolução Humana
Vídeo originalmente produzido pela Discovery.
Marcadores:
Biologia,
Discovery,
Evolução Humana,
Homem e Sociedade
quinta-feira, 8 de abril de 2010
BIOLOGICAMENTE CULTURAL
Vera Silvia Raad Bussab (Universidade de São Paulo)
Fernando Leite Ribeiro (Universidade de São Paulo)
Sem dúvida, o homem se distingue dos demais seres vivos do planeta pelo seu modo de vida cultural altamente especializado, caracterizado pela transmissão de informações de geração a geração via experiência, e pelo uso da linguagem e de outras representações simbólicas.
O contexto cultural permite uma acumulação de informações dentro do grupo, que se refletem em crenças, práticas e rituais. As formas de transmissão social variam desde mera exposição facilitadora de certos desempenhos a modelos mais experientes até instruções formais dirigidas. Entre outras coisas, a cultura dispensa o indivíduo de aprender por ensaio, tudo de novo, a cada geração, ao mesmo tempo em que permite a adição de novas aprendizagens decorrentes das experiências de cada um. Este arranjo parece possibilitar o ajustamento a uma grande variedade de desafios do meio, como a própria história da humanidade pode atestar.
Costumamos nos orgulhar desta capacidade, que nos distancia dos demais animais, que nos confere certo poder sobre as forças naturais e que, até certo ponto, parece nos libertar de nossa própria natureza.
Em parte, a idéia da peculiaridade se justifica. Embora a adaptação ao meio através de aprendizagem individual seja fato comum nos animais em geral, e ainda que os primatas apresentem alguma tendência à aprendizagem social e à transmissão cultural, no caso humano estes traços alcançaram níveis extremamente diferenciados.
Entretanto, o arranjo cultural não é tão simples, direto e eficiente, e nem tão ilimitadamente ajustável a desafios. Além disto, as relações entre natureza humana e cultura são muito mais complexas do que pode parecer à primeira vista. Inclusive, é possível que um entendimento aprofundado desta questão possa representar uma verdadeira chave para a compreensão da humanidade.
O modo de vida estritamente cultural impõe uma série de exigências para seu funcionamento. Para começar, aumenta muito a importância da proximidade e das relações sociais por um lado, e da inteligência, por outro. Nenhuma espécie envereda por um caminho destes impunemente.Dentro de um jogo complicado, pode-se pensar que a cultura, ao aumentar as chances de sobrevivência do grupo, também aumenta a sua dependência da cultura para sobreviver. Ao mesmo tempo em que liberta, submete.
Escapa-se de uma armadilha, entrando em outra.
Compreender o impacto da cultura na evolução humana tem sido um desafio constante.
Ao que tudo indica, assim que nossos ancestrais desenvolveram uma dependência da cultura para sobreviver, a seleção natural começou a favorecer genes para o comportamento cultural.
Cultural antes de ser humano
A análise do registro fóssil, a partir dos primeiros sinais evidentes de uma estratégia cultural diferenciada, mostra uma evolução pari passu da biologia e da cultura que esclarece o processo de estabelecimento da natureza cultural do homem.
Os sítios fósseis hominídeas de cerca de dois milhões de anos atrás, associados, ao que se sabe, ao Homo habilis, sugerem um forte comprometimento deste suposto ancestral com um modo de vida sócio-cultural, através de um extenso conjunto de instrumentos manufaturados de pedra. Usados para o processamento de carne (Isaac. 1983).
Não se está sugerindo que esses sejam os primeiros casos de uso de instrumentos na evolução humana: é muito provável que antes daquele período os hominidas tenham feito uso de instrumentos de madeira ou mesmo utilizado pedras brutas. Afinal, feitos deste tipo têm sido bem demonstrados em primatas. Chimpanzés, por exemplo, preparam galhos para usar como varas para pegar formigas dentro dos formigueiros usam bastões para ameaçar outros indivíduos e pedras para quebrar nozes (Uma resenha sobre o assunto foi publicada por McGrew,em 1996). Deve-se notar, também, que esses usos dificilmente ficariam marcados no registro fóssil.
Seja como for, o uso intensivo e padronizado de instrumentos por Homo habilis representou um marco evolutivo, cuja análise pode ser interessante.
O uso de instrumentos é apenas um dos sinais de um modo de vida sócio-cultural. A análise dos primeiros sítios fósseis revelou uma complexa rede de eventos, que parece requerer trocas sociais intensificadas e transmissão de conhecimentos. Há uma tecnologia típica de lascamento, designada olduvaiense, que persiste no registro, inclusive nas primeiras fases do Homo erectus, o sucessor do habilis. A utilização de uma determinada matéria prima era sistemática: o hominida carregava consigo a pedra bruta e realizava o lascamento no local de processar a carne. Há evidências de que partes de animais, provavelmente abatidos por outros carnívoros eram transportadas para estes locais. Os dados são compatíveis com a existência de locais compartilhados por um grupo. Não há evidências de caça de animais de grande porte, que até hoje só se encontrou associada a Homo erectus. O estabelecimento e a manutenção de uma determinada tecnologia de lascamento, no caso associada a uma tecnologia geral de
obtenção de recursos, requer acúmulo e transmissão de conhecimentos, relativos à obtenção da matéria prima, à forma de lascar, ao uso, ao local, à organização do grupo e assim por diante.
A partir destes primeiros sinais de um comprometimento intensificado com a cultura, podemos acompanhar no registro fóssil, associadamente, a evolução cultural e a biológica. No exato momento em que a sobrevivência fica afetada pela cultura, começa a se exercer, uma pressão seletiva que seleciona o comportamento cultural. Cria-se um contexto especial de seleção natural. Dentro desta lógica, seria de esperar que a partir de então todas as características favoráveis ao desenvolvimento e à transmissão de cultura fossem selecionadas. De fato, há fortes indicadores disto.
O crescimento do cérebro dentro da cultura
A evolução do cérebro pode ser ilustrativa. Trata-se de um órgão muito especializado. O cérebro humano é cerca de três vezes maior do que seria de esperar para um primata do nosso tamanho. É preciso notar que o tamanho cerebral deve ser considerado em termos
relativos.O elefante e a baleia têm cérebros bem maiores que o nosso em termos absolutos, mas proporcionalmente menores. Na evolução humana houve uma expansão cerebral superior à que seria determinada pelo mero crescimento geral do corpo. O chamado quociente de encefalização -tamanho esperado do crescimento do cérebro em função do aumento do corpo dentro dos padrões primatas - parece ir aumentando gradualmente na evolução hominida, em especial, o neocórtex (Foley, 1996).Além disso, o cérebro humano também apresenta uma acentuada especialização hemisférica, maior do que a de qualquer outro primata, o que em certo sentido quase duplica o seu tamanho.Nos macacos mais primitivos, um hemisfério praticamente repete a função do outro (Passinghan, 1982).
Embora o processo de hominização tenha sido marcado de modo bem nítido pela especialização cultural, a busca dos traços característicos assim selecionados mostra um amplo conjunto de adaptações, que vai muito além do crescimento da capacidade cerebral e da inteligência. Este conjunto de adaptações pode ajudar na compreensão da natureza cultural humana.
Qualquer traço selecionado cumpre sua função dentro de um contexto que envolve muitos outros ajustes e influências mútuas. Hinde (1987) menciona o princípio biológico de que características anatômicas, fisiológicas e comportamentais de uma espécie formam um complexo co-adaptado, de tal forma que mudanças evolutivas numa delas têm efeitos que se ramificam no conjunto. Para voar, os pássaros não têm apenas asas, têm também outras adaptações fisiológicas relacionadas a atributos anatômicos e aerodinâmicos bem como a comportamentos: mais ainda, a evolução destas características ocorreu associada a um estilo de vida em que voar era vantajoso.
Estrutura social e vínculos afetivos
Em contraste com o padrão primata ancestral, identificam-se alterações globais na organização social, nas ligações afetivas, e nas estratégias ontogenéticas de desenvolvimento, ao longo da hominização, formando uma rede intrincada, um complexo co-adaptado. Aumentam a sobreposição de gerações, a dependência infantil, o apego e os cuidados parentais. É fortalecida a união afetiva entre homem e mulher, com intensificação da sexualidade e tendência a ligações duradouras. Há alteração da organização social, da cooperação grupal e da divisão de trabalho. Aparece Partilha de alimentos típica (ver, por exemplo, Leakey, 1981ou Johanson, 1996). Constata-se ainda uma certa juvenilização da espécie, por um prolongamento da fase infantil e também pela manutenção na fase adulta de alguns traços que no ancestral ficavam restritos à infância (Gould, 1987). Este processo neotênico ocorreu tanto em termos psicológicos, como pode ser exemplificado pela intensificação dos comportamentos lúdicos e exploratórios, quanto em termos anatômicos, o que pode ser visto através da manutenção na idade adulta, de inúmeros traços primatas infantis, como o perfil da face, a relativa ausência de pelos e assim por diante.
Todas estas características têm relações evolutivas com o contexto cultural: ao mesmo tempo em que foram por este selecionadas, também propiciaram a evolução cultural.
A linguagem é uma característica biológica
Neste sentido, merece destaque o aparecimento da linguagem. Sinais associados ao desenvolvimento de uma linguagem extensiva aparecem especialmente com o Homosapiens. Dentre outros, destaca-se a presença de um aparelho fonador especializado que permite gerar sons contrastantes com facilidade (Laitman, 1984). É claro que para falar, não basta um aparelho fonador eficiente. Analogamente ao raciocínio acima mencionado quanto ao vôo dos pássaros, inúmeras outras capacidades são requeridas: perceptuais, cognitivas, interacionais, tudo isto evoluindo dentro de um modo de vida em que falar seja vantajoso.
A linguagem é, aliás, uma excelente evidência para a ação decisiva da evolução sobre os comportamentos culturais, fato que não tem escapado aos diversos estudiosos do assunto (Passinghan, 1982; Foley, 1996). Se de um lado ela pode ser entendida como essencial à cultura, como fruto desta, por outro, está fortemente enraizada em propriedades biológicas ligadas à estrutura cerebral, à anatomia do sistema fonador e à herança da capacidade lingüística.
A aquisição da linguagem pelo recém-nascido não é a imposição de um sistema arbitrário ou convencional de códigos por parte dos adultos a um aprendiz inteligente. Não se trata de um processo de ensaio-e-erro com reforço dos acertos. O talento do recém-nascido humano para adquirira linguagem é uma habilidade específica dotada de motivação própria. O ser humano é biologicamente lingüístico; nasce com os recursos cognitivos, motivacionais, fisiológicos e anatômicos para entender e usar a linguagem humana que se estiver falando em seu ambiente. Por sua vez, as línguas humanas são construídas, mantidas e transformadas por esses mesmos seres humanos que as adquirem a cada geração. E todos os seus aspectos - sonoros, rítmicos, melódicos, léxicos, sintáticos, etc -decorrem das características dos indivíduos que as produzem.
Para entender as línguas - suas características e evolução - é preciso entender o ser psicobiológico que as inventou. A diversidade lingüística - o fato de milhares delas terem sido criadas - não nos deve confundir. Não apenas o que é comum a todas elas, mas também a própria variedade constituem indicadores importantes sobre o curso da evolução biológica da habilidade lingüística.
Ao lado das especializações anatômicas e fisiológicas, exemplificadas pela especialização do cérebro e do aparelho fonador, ao longo do processo de hominização os indicadores culturais foram ficando mais complexos. Pode-se dizer que uma coisa puxou a outra: um cérebro maior permitia novos desenvolvimentos culturais; um contexto cultural mais desenvolvido promovia a seleção de nova especialização cerebral. Não indefinidamente, nem ponto a ponto, convém dizer.Há uma relação de custos e benefícios a ser considerada. Há limites para o crescimento da cauda do pavão. Há ainda descompassos. Todavia, tomados alguns cuidados para não simplificar indevidamente o processo, pode-se dizer que biologia e cultura caminharam juntas.
A própria cultura é uma característica biológica.
Há porém, mais do que isso: o ser cultural do homem deve ser entendido como biológico.
Há mais do que um jogo de palavras na afirmação de que o homem é naturalmente cultural, ou ainda, de que a chave para a compreensão da natureza humana está na cultura e a chave para a da cultura está na natureza humana. O homem é a um só tempo, criatura e criador da cultura. Nas palavras de Morin (1973, p.92), "o que ocorreu no processo de hominização foi uma aptidão natural para a cultura e a aptidão cultural para desenvolver a natureza humana".
Desse modo, "desaba o antigo paradigma que opunha natureza e cultura" (p.94). Entretanto, apesar da força do argumento, mesmo várias décadas depois, ainda não se foi muito adiante.
Pensar na evolução cultural como causa de ruptura com a seleção natural, ou como uma atenuação dos seus efeitos, é colocar mal a questão. Embora isto possa até valer para casos específicos, pois algumas forças de pressão seletiva poderiam mesmo ser minimizada, a afirmação não pode ser generalizada. Poder-se-ia, por exemplo, encontrar resultados opostos, com acentuação da força de certas pressões.
À medida que vai crescendo a utilização de recursos culturais, vai aumentando cada vez mais a iniciação requerida dos jovens aos usos e costumes do grupo.
A predisposição dos bebês para a Iniciação cultural
A evolução cultural do homem se deu não só pelo desenvolvimento da inteligência e da capacidade simbólica, mas também pelo fortalecimento das vinculações afetivas, das trocas interacionais, dos compartilhamentos e da comunicação de um modo geral conforme inferências filogenéticas e estudos comparativos.
O desenvolvimento inicial dos bebês e principalmente das ligações entre adultos e bebês, podem ser elucidativos. Investigações minuciosas do comportamento de crianças pequenas em situações naturais têm revelado de modo contundente a presença de adaptações naturais para a interação social e para a formação de vinculações afetivas. As habilidades precoces de regulação social ficam ainda mais sugestivas da importância das relações sociais na evolução e no desenvolvimento, quando contrastadas à imaturidade geral dos comportamentos do recém-nascido.
Os bebês nascem com uma forte tendência para a vinculação afetiva.Em primeiro lugar, chama a atenção à capacidade de responder preferencialmente a sinais do contato afetuoso do adulto. Mesmo bebês prematuros reagem ao olhar e à fala carinhosa abrindo mais os olhos e mantendo-se em maior estado de atenção (Eckeman et al, 1994).
Claramente, há um processo de reconhecimento individual e de vinculação afetiva em andamento desde o início, revelado pela tendência à vinculação personalizada. Nas primeiras semanas de vida os bebês discriminam e preferem a voz e o odor de suas mães (MacFarlane, 1975; Schaal et al, 1980). Com 45 horas de vida discriminam a face da mãe (Field et al, 1984) e com 3 semanas, preferem-na em relação à de um estranho (Carpenter, 1973).Embora as reações típicas de apego e de medo de estranhos tendam a aparecer depois do oitavo mês (Bowlby, 1984), são surpreendentes os indicadores mais precoces: entre 8e 16semanasas crianças já reagem a estranhos e usam a mãe como base de segurança (Mizukami et aI, 1990).
O chamado sorriso verdadeiro, que ocorre por volt a da terceira semana de vida, é revelador. O próprio desenvolvimento inicial em idade tão tenra e, às vezes, em circunstâncias adversas, como em crianças cegas de nascença, é sugestivo do seu valor adaptativo.
Por sua vez, os estímulos eficazes para desencadear sorrisos não deixam dúvidas quanto à sua natureza. De início, o estímulo mais eficiente para produzi-lo é a fala afetuosa. Mais tarde, passa a ser o olhar dirigido; mesmo uma representação esquemática de olhos pode ser eficiente. Com o tempo, passa a ser desencadeado apenas por faces completas e, finalmente, apenas por rostos familiares (revisão em Otta, 1994).
Diversas formas de compartilhamentos básicos, típicos da interação humana, estão presentes desde o início. Recém-nascidos são capazes de igualar, sem ensaio, expressões faciais exibidas por outra pessoa, durante a interação (Meltzoff et aI, 1977,1983; Field et ai, 1982).Também ocorrem igualações vocais: bebês de dois meses emitem vocalizações simultâneas às da mãe, no mesmo tom. (Papousek et aI, 1984). Os bebês coordenam a movimentação geral do corpo, em ritmo com a fala que ouvem, o que tem sido chamado de sincronia interacional (Condon et ai, 1974).
A existência destes ecos, espelhos e danças biológicas, tem sido associada à aquisição da linguagem e à aculturação. Estes processos parecem representar canais de comunicação privilegiados, favorecedores de uma percepção compartilhada e de sincronizações e ajustes interacionais, ou mesmo de algum contágio ou igualamento emocional.
É neste contexto que se processa o desenvolvimento humano. Formam-se as ligações afetivas, determinadas pela quantidade e qualidade das interações –responder consistentemente aos sinais da criança e brincar adequadamente com ela são os fatores essencialmente determinantes da formação de laços afetivos (Bowlby, 1984). Ao mesmo tempo, ocorre o desenvolvimento cognitivo: a aquisição da linguagem, por exemplo, também se processa neste mesmo contexto interacional, de percepções compartilhadas, em associação a uma forte predisposição da criança para balbuciar e para igualar emissões vocais. Os bebês apresentam, desde cedo, alternações vocais do tipo diálogo, embora no terceiro mês as vocalizações simultâneas sejam duas vezes mais freqüentes e apareça em interações associadas aos níveis emocionais mais altos, como brincadeira alegre, raiva ou tristeza (Stem et aI, 1977). Neste ponto, pode-se relembrar que a fala tem um efeito sincronizador entre os indivíduos. Em alguns contextos, este efeito importa mais do que o próprio conteúdo da linguagem. Falas maternas tranqüilizadoras apresentam um perfil espectográfico típico, seja o que for que estiver sendo dito: há uma queda tonal no final da emissão, que convida ao aquietamento. Movimento oposto caracteriza o convite à brincadeira (Papousek et aI, 1984).
A crescente literatura sobre os bebês mostra o quanto à seleção natural atuou favorecendo ligações afetivas individualizadas e outras relações entre os indivíduos e que é neste contexto que a iniciação cultural se processa.
Tanto os indicadores ontogenéticos quanto os filogenéticos mostram que a cultura humana tornou-se possível através de um viver sócio-afetivo intensificado, de vínculos grupais fortalecidos e, entre muitas outras coisas, do estabelecimento, no jovem, de uma tendência para a educabilidade, busca de referenciamento no adulto significativo, compartilhamento e brincadeira.
O comportamento lúdico
A juvenilização da espécie, o aumento do período infantil e do brincar, mesmo na idade adulta, são de tal modo salientes que análises da importância adaptativa destas características ocupam um lugar central na maior parte das teorias (Morin, 1973).
A brincadeira tem sido analisada em termos de estratégias de história de vida (como em
Fagen, 1982). Benefícios imediatos quanto à aptidão não são nítidos e podem ser contraditórios; por exemplo, na medida em que brincar expõe o indivíduo a riscos, ocorre gasto de energia sem vantagens imediatas. Todavia, acredita-se que traga benefícios de longo prazo, decorrentes do aumento da flexibilidade comportamental e da redução das reações de medo.
O ambiente cultural da tribo de caça e coleta
A cultura dentro da qual se deu o processo de hominização foi a dos grupos de hominídeos que viviam de caça e coleta. A formação do Homo sapiens atual completou-se antes da chamada revolução agrícola e do surgimento dos aglomerados urbanos. As transformações culturais posteriores ao fim do modo de vida de caça e coleta constituem um problema à parte que não se deve confundir com as questões aqui discutidas. São muito recentes e instáveis, com aspectos contraditórios: a população cresce, mas surgem estranhos problemas de organização e relacionamento entre os indivíduos e entre grupos de indivíduos. O ser humano nasce num ambiente cultural diferente da pequena tribo auto-suficiente de caça e coleta para a qual está psicobiologicamente aparelhado.
As poucas sociedades contemporâneas de caçadores coletores podem fornecer algumas evidências do processo natural de iniciação cultural dos jovens. Este modo de vida tem sido considerado parte integrante do ambiente natural humano, pois começou a se organizar com o Homo habilis, estabeleceu-se mais nitidamente em Homo erectus e predominou até muito recentemente em Homo sapiens. Pode, portanto, ser considerado como o berço evolutivo do homem moderno, o contexto para o qual este foi selecionado e para o qual exibe adaptações naturais.
Dos vários estudos realizados com alguns destes povos, é possível concluir que, nesse meio, ao conviver intensamente com um grupo social estável, cerca de 30 pessoas, uma família estendida, a criança tem, de sobra, oportunidades de interação, de estabelecimento de vínculos e de brincadeira exploratória. O contato com o bebê é intenso, a amamentação é contínua e o desmame tardio. Na coleta, o bebê é mantido junto ao corpo da mãe, que responde às suas inquietações mais sutis; mantido em posição vertical, tem contato social e acesso ao mundo adulto facilitado.Está sempre presente no palco da ação significativa de seu grupo: coleta, alguns episódios de caça, lida com instrumentos e toda a intensa vida social do bando em tomo destes eventos (Konner, 1981; Sorenson, 1979; Bruner, 1976).
A ausência de instrução formalizada chama a atenção. O aprender ocorre por exposição contínua e por interesse próprio. Todos os elementos significativos da vida do grupo aparecem na brincadeira. Os adultos estão sempre muito disponíveis, afetivos e convivem intensamente com os jovens: brincam e dançam juntos, sentam-se juntos para muitas atividades ou em tomo da fogueira, cantam e contam estórias.Este envolvimento mútuo e as predisposições naturais da criança para aprender com as figuras de apego parecem garantir, neste modo de vida, o desenvolvimento e o domínio do repertório típico do adulto.
A Inteligência humana é um recurso cultural
A evolução natural humana foi marcada por uma adaptação natural via cultura.
Indicadores filogenéticos e ontogenéticos de como esta adaptação se processou revelam
bem mais do que um aumento da inteligência.
Uma análise mais minuciosa da própria natureza da inteligência já mostra que nem o próprio processo psicológico subjacente é estritamente cognitivo, e nem a funcionalidade pela qual ela foi selecionada é estritamente voltada à solução racional de problemas.
Há um reconhecimento cada vez maior da necessidade de se considerar a inteligência como um processo inseparável de outros. Fala-se em inteligência emocional, embora em cada uso isto possa significar coisas diferentes. Os trabalhos de Damásio (1996) ilustram um destes casos.A partir de estudos de alguns distúrbios neurológicos, esse autor esboçou uma teoria sobre a biologia da razão, em oposição ao dualismo razão e sentimento, através da análise de comprometimentos de raciocínio decorrentes de lesões pré-frontais cujo efeito mais notável é a perda ou a atenuação de sentimentos e emoções.
Estes passam então a ser entendidos como parte essencial dos processos de raciocínio e de tomada de decisões, indo-se além da idéia de efeitos recíprocos entre cognição e emoção.
Questionamentos sobre para que serve a inteligência, também podem levar a conclusões inesperadas, embora, à primeira vista, esta formulação possa até parecer sem sentido.
Costumamos colocar a inteligência acima de qualquer suspeita como o traço mais adaptativo que conseguimos imaginar para a solução de toda a sorte de problemas, e tê-Ia em tão alta conta, que nem sempre visualizamos seus custos, problemas e limitações.
A própria raridade nos fornece uma pista: já que muitos animais se adaptam via aprendizagem individual e, pelo menos alguns deles, vivem em grupos sociais, por que esta intensificação da inteligência não ocorreu em outras espécies? Este problema é um desafio pouco reconhecido pelos estudiosos da área. As tentativas de entender a raridade da inteligência levam a considerações sobre custos e benefícios, sobre a real funcionalidade da inteligência e sobre os mecanismos da evolução. Talvez os riscos envolvidos sejam altos. O preço da inteligência pode ser a indecisão sem fim (Foley, 1996), ou a desintegração dos comportamentos organizados instintivamente (Barkow, 1983).Pode ser que para funcionar aumentando a aptidão, este traço dependa de um complexo co-adaptado muito amplo e de uma série de circunstâncias evolucionárias.
Quanto à funcionalidade, a busca de correlações entre inteligência e os fatores associados ao modo de vida das espécies, apesar de todos os problemas metodológicos dos estudos comparativos, pode ser esclarecedora.Dois tipos de fatores têm sido apontados (Foley, 1996).
Ambientes naturais ecologicamente mais complexos parecem exercer pressão seletiva maior sobre a evolução da inteligência. O argumento parece funcionar bem em muitos casos, como na comparação de carnívoros com herbívoros. Aplica-se, também, à comparação entre espécies de mesma ordem. Assim, chimpanzés, que evoluíram em um contexto ecologicamente mais complicado do que os gorilas, pelo menos do ponto de vista alimentar, apresentam uma inteligência mais desenvolvida. Porém, este fator nem sempre parece ser o principal determinante. Fica difícil entender a superioridade da inteligência primata, em comparação com a dos carnívoros, em função dos desafios ambientais na obtenção de recursos. Não se pode dizer que o ambiente dos primatas seja ecologicamente mais complicado, como explicação para a sua inteligência diferenciada.
A sociabilidade é também apontada como um fator importante na evolução da inteligência (Humphrey, 1976). A complexidade das relações sociais explicaria potencialmente a evolução do cérebro, grupo social entendido como envolvendo reconhecimento individual, interações consistentes no tempo e no espaço, sendo as associações baseadas em familiaridade e parentesco. O fluxo dos relacionamentos exigiria constante processamento de informações recíprocas quanto a comportamentos e expectativas. O cérebro teria evoluído para resolver problemas sociais. Não faltam evidências da complexidade da vida social de primatas (Byme et ai, 1986). Parece também haver correlação direta entre tamanho típico do grupo social e tamanho do neocórtex (Dunbar, 1992).
Os aspectos mais complexos da cultura também têm base psicobiológica
Nem sempre as funções adaptativas das estruturas simbólicas existentes nas culturas são nítidas. Ao contrário, quando analisadas do ponto de vista de seus conteúdos, segundo uma lógica funcional, podem parecer desajustadas. Em alguns casos, chegam a ser entendidas como sub-produtos de outras capacidades selecionadas, o que, se correto, tornaria a análise funcional mais complicada. Entretanto, estas estruturas simbólicas têm sido mais razoavelmente consideradas como promotoras de sobrevivência em sociedade pela facilitação da co-adaptação entre os indivíduos (ver Rindos, 1986).
Sincronizações e induções afetivas e motivacionais permeiam as interações em geral.
Presentes nas interações cotidianas individuais, também parecem estar na essência de práticas sociais grupais. Situações sociais típicas, tais como as da dança, da música, do canto conjunto, parecem refletir estes mesmos processos de sincronização e de coesão do grupo via atividade simultânea partilhada (Eibl- Eibesfeldt, 1989).
Concebe-se a estrutura sócio-cultural como produto de cérebros moldados pela seleção e, portanto, ligada às propensões comportamentais, atitudes, medos e ansiedades dos indivíduos. Por isso, práticas culturais, rituais e crenças não podem ser entendidas sem que a natureza desses indivíduos também o seja. Os mitos devem ser vistos como um processo de criação contínua, elaborados coletivamente, representando as maneiras de lidar com as cognições e emoções vividas pelos indivíduos, com o sexo, com o ambiente natural e com a morte e a vida. Segundo Hinde (1987), refletem, afetam, e fazem parte do complexo conjunto de interações entre os indivíduos e suas relações, e as condições gerais da sociedade em que vivem.
*Original, bem como referências em:
Fernando Leite Ribeiro (Universidade de São Paulo)
Sem dúvida, o homem se distingue dos demais seres vivos do planeta pelo seu modo de vida cultural altamente especializado, caracterizado pela transmissão de informações de geração a geração via experiência, e pelo uso da linguagem e de outras representações simbólicas.
O contexto cultural permite uma acumulação de informações dentro do grupo, que se refletem em crenças, práticas e rituais. As formas de transmissão social variam desde mera exposição facilitadora de certos desempenhos a modelos mais experientes até instruções formais dirigidas. Entre outras coisas, a cultura dispensa o indivíduo de aprender por ensaio, tudo de novo, a cada geração, ao mesmo tempo em que permite a adição de novas aprendizagens decorrentes das experiências de cada um. Este arranjo parece possibilitar o ajustamento a uma grande variedade de desafios do meio, como a própria história da humanidade pode atestar.
Costumamos nos orgulhar desta capacidade, que nos distancia dos demais animais, que nos confere certo poder sobre as forças naturais e que, até certo ponto, parece nos libertar de nossa própria natureza.
Em parte, a idéia da peculiaridade se justifica. Embora a adaptação ao meio através de aprendizagem individual seja fato comum nos animais em geral, e ainda que os primatas apresentem alguma tendência à aprendizagem social e à transmissão cultural, no caso humano estes traços alcançaram níveis extremamente diferenciados.
Entretanto, o arranjo cultural não é tão simples, direto e eficiente, e nem tão ilimitadamente ajustável a desafios. Além disto, as relações entre natureza humana e cultura são muito mais complexas do que pode parecer à primeira vista. Inclusive, é possível que um entendimento aprofundado desta questão possa representar uma verdadeira chave para a compreensão da humanidade.
O modo de vida estritamente cultural impõe uma série de exigências para seu funcionamento. Para começar, aumenta muito a importância da proximidade e das relações sociais por um lado, e da inteligência, por outro. Nenhuma espécie envereda por um caminho destes impunemente.Dentro de um jogo complicado, pode-se pensar que a cultura, ao aumentar as chances de sobrevivência do grupo, também aumenta a sua dependência da cultura para sobreviver. Ao mesmo tempo em que liberta, submete.
Escapa-se de uma armadilha, entrando em outra.
Compreender o impacto da cultura na evolução humana tem sido um desafio constante.
Ao que tudo indica, assim que nossos ancestrais desenvolveram uma dependência da cultura para sobreviver, a seleção natural começou a favorecer genes para o comportamento cultural.
Cultural antes de ser humano
A análise do registro fóssil, a partir dos primeiros sinais evidentes de uma estratégia cultural diferenciada, mostra uma evolução pari passu da biologia e da cultura que esclarece o processo de estabelecimento da natureza cultural do homem.
Os sítios fósseis hominídeas de cerca de dois milhões de anos atrás, associados, ao que se sabe, ao Homo habilis, sugerem um forte comprometimento deste suposto ancestral com um modo de vida sócio-cultural, através de um extenso conjunto de instrumentos manufaturados de pedra. Usados para o processamento de carne (Isaac. 1983).
Não se está sugerindo que esses sejam os primeiros casos de uso de instrumentos na evolução humana: é muito provável que antes daquele período os hominidas tenham feito uso de instrumentos de madeira ou mesmo utilizado pedras brutas. Afinal, feitos deste tipo têm sido bem demonstrados em primatas. Chimpanzés, por exemplo, preparam galhos para usar como varas para pegar formigas dentro dos formigueiros usam bastões para ameaçar outros indivíduos e pedras para quebrar nozes (Uma resenha sobre o assunto foi publicada por McGrew,em 1996). Deve-se notar, também, que esses usos dificilmente ficariam marcados no registro fóssil.
Seja como for, o uso intensivo e padronizado de instrumentos por Homo habilis representou um marco evolutivo, cuja análise pode ser interessante.
O uso de instrumentos é apenas um dos sinais de um modo de vida sócio-cultural. A análise dos primeiros sítios fósseis revelou uma complexa rede de eventos, que parece requerer trocas sociais intensificadas e transmissão de conhecimentos. Há uma tecnologia típica de lascamento, designada olduvaiense, que persiste no registro, inclusive nas primeiras fases do Homo erectus, o sucessor do habilis. A utilização de uma determinada matéria prima era sistemática: o hominida carregava consigo a pedra bruta e realizava o lascamento no local de processar a carne. Há evidências de que partes de animais, provavelmente abatidos por outros carnívoros eram transportadas para estes locais. Os dados são compatíveis com a existência de locais compartilhados por um grupo. Não há evidências de caça de animais de grande porte, que até hoje só se encontrou associada a Homo erectus. O estabelecimento e a manutenção de uma determinada tecnologia de lascamento, no caso associada a uma tecnologia geral de
obtenção de recursos, requer acúmulo e transmissão de conhecimentos, relativos à obtenção da matéria prima, à forma de lascar, ao uso, ao local, à organização do grupo e assim por diante.
A partir destes primeiros sinais de um comprometimento intensificado com a cultura, podemos acompanhar no registro fóssil, associadamente, a evolução cultural e a biológica. No exato momento em que a sobrevivência fica afetada pela cultura, começa a se exercer, uma pressão seletiva que seleciona o comportamento cultural. Cria-se um contexto especial de seleção natural. Dentro desta lógica, seria de esperar que a partir de então todas as características favoráveis ao desenvolvimento e à transmissão de cultura fossem selecionadas. De fato, há fortes indicadores disto.
O crescimento do cérebro dentro da cultura
A evolução do cérebro pode ser ilustrativa. Trata-se de um órgão muito especializado. O cérebro humano é cerca de três vezes maior do que seria de esperar para um primata do nosso tamanho. É preciso notar que o tamanho cerebral deve ser considerado em termos
relativos.O elefante e a baleia têm cérebros bem maiores que o nosso em termos absolutos, mas proporcionalmente menores. Na evolução humana houve uma expansão cerebral superior à que seria determinada pelo mero crescimento geral do corpo. O chamado quociente de encefalização -tamanho esperado do crescimento do cérebro em função do aumento do corpo dentro dos padrões primatas - parece ir aumentando gradualmente na evolução hominida, em especial, o neocórtex (Foley, 1996).Além disso, o cérebro humano também apresenta uma acentuada especialização hemisférica, maior do que a de qualquer outro primata, o que em certo sentido quase duplica o seu tamanho.Nos macacos mais primitivos, um hemisfério praticamente repete a função do outro (Passinghan, 1982).
Embora o processo de hominização tenha sido marcado de modo bem nítido pela especialização cultural, a busca dos traços característicos assim selecionados mostra um amplo conjunto de adaptações, que vai muito além do crescimento da capacidade cerebral e da inteligência. Este conjunto de adaptações pode ajudar na compreensão da natureza cultural humana.
Qualquer traço selecionado cumpre sua função dentro de um contexto que envolve muitos outros ajustes e influências mútuas. Hinde (1987) menciona o princípio biológico de que características anatômicas, fisiológicas e comportamentais de uma espécie formam um complexo co-adaptado, de tal forma que mudanças evolutivas numa delas têm efeitos que se ramificam no conjunto. Para voar, os pássaros não têm apenas asas, têm também outras adaptações fisiológicas relacionadas a atributos anatômicos e aerodinâmicos bem como a comportamentos: mais ainda, a evolução destas características ocorreu associada a um estilo de vida em que voar era vantajoso.
Estrutura social e vínculos afetivos
Em contraste com o padrão primata ancestral, identificam-se alterações globais na organização social, nas ligações afetivas, e nas estratégias ontogenéticas de desenvolvimento, ao longo da hominização, formando uma rede intrincada, um complexo co-adaptado. Aumentam a sobreposição de gerações, a dependência infantil, o apego e os cuidados parentais. É fortalecida a união afetiva entre homem e mulher, com intensificação da sexualidade e tendência a ligações duradouras. Há alteração da organização social, da cooperação grupal e da divisão de trabalho. Aparece Partilha de alimentos típica (ver, por exemplo, Leakey, 1981ou Johanson, 1996). Constata-se ainda uma certa juvenilização da espécie, por um prolongamento da fase infantil e também pela manutenção na fase adulta de alguns traços que no ancestral ficavam restritos à infância (Gould, 1987). Este processo neotênico ocorreu tanto em termos psicológicos, como pode ser exemplificado pela intensificação dos comportamentos lúdicos e exploratórios, quanto em termos anatômicos, o que pode ser visto através da manutenção na idade adulta, de inúmeros traços primatas infantis, como o perfil da face, a relativa ausência de pelos e assim por diante.
Todas estas características têm relações evolutivas com o contexto cultural: ao mesmo tempo em que foram por este selecionadas, também propiciaram a evolução cultural.
A linguagem é uma característica biológica
Neste sentido, merece destaque o aparecimento da linguagem. Sinais associados ao desenvolvimento de uma linguagem extensiva aparecem especialmente com o Homosapiens. Dentre outros, destaca-se a presença de um aparelho fonador especializado que permite gerar sons contrastantes com facilidade (Laitman, 1984). É claro que para falar, não basta um aparelho fonador eficiente. Analogamente ao raciocínio acima mencionado quanto ao vôo dos pássaros, inúmeras outras capacidades são requeridas: perceptuais, cognitivas, interacionais, tudo isto evoluindo dentro de um modo de vida em que falar seja vantajoso.
A linguagem é, aliás, uma excelente evidência para a ação decisiva da evolução sobre os comportamentos culturais, fato que não tem escapado aos diversos estudiosos do assunto (Passinghan, 1982; Foley, 1996). Se de um lado ela pode ser entendida como essencial à cultura, como fruto desta, por outro, está fortemente enraizada em propriedades biológicas ligadas à estrutura cerebral, à anatomia do sistema fonador e à herança da capacidade lingüística.
A aquisição da linguagem pelo recém-nascido não é a imposição de um sistema arbitrário ou convencional de códigos por parte dos adultos a um aprendiz inteligente. Não se trata de um processo de ensaio-e-erro com reforço dos acertos. O talento do recém-nascido humano para adquirira linguagem é uma habilidade específica dotada de motivação própria. O ser humano é biologicamente lingüístico; nasce com os recursos cognitivos, motivacionais, fisiológicos e anatômicos para entender e usar a linguagem humana que se estiver falando em seu ambiente. Por sua vez, as línguas humanas são construídas, mantidas e transformadas por esses mesmos seres humanos que as adquirem a cada geração. E todos os seus aspectos - sonoros, rítmicos, melódicos, léxicos, sintáticos, etc -decorrem das características dos indivíduos que as produzem.
Para entender as línguas - suas características e evolução - é preciso entender o ser psicobiológico que as inventou. A diversidade lingüística - o fato de milhares delas terem sido criadas - não nos deve confundir. Não apenas o que é comum a todas elas, mas também a própria variedade constituem indicadores importantes sobre o curso da evolução biológica da habilidade lingüística.
Ao lado das especializações anatômicas e fisiológicas, exemplificadas pela especialização do cérebro e do aparelho fonador, ao longo do processo de hominização os indicadores culturais foram ficando mais complexos. Pode-se dizer que uma coisa puxou a outra: um cérebro maior permitia novos desenvolvimentos culturais; um contexto cultural mais desenvolvido promovia a seleção de nova especialização cerebral. Não indefinidamente, nem ponto a ponto, convém dizer.Há uma relação de custos e benefícios a ser considerada. Há limites para o crescimento da cauda do pavão. Há ainda descompassos. Todavia, tomados alguns cuidados para não simplificar indevidamente o processo, pode-se dizer que biologia e cultura caminharam juntas.
A própria cultura é uma característica biológica.
Há porém, mais do que isso: o ser cultural do homem deve ser entendido como biológico.
Há mais do que um jogo de palavras na afirmação de que o homem é naturalmente cultural, ou ainda, de que a chave para a compreensão da natureza humana está na cultura e a chave para a da cultura está na natureza humana. O homem é a um só tempo, criatura e criador da cultura. Nas palavras de Morin (1973, p.92), "o que ocorreu no processo de hominização foi uma aptidão natural para a cultura e a aptidão cultural para desenvolver a natureza humana".
Desse modo, "desaba o antigo paradigma que opunha natureza e cultura" (p.94). Entretanto, apesar da força do argumento, mesmo várias décadas depois, ainda não se foi muito adiante.
Pensar na evolução cultural como causa de ruptura com a seleção natural, ou como uma atenuação dos seus efeitos, é colocar mal a questão. Embora isto possa até valer para casos específicos, pois algumas forças de pressão seletiva poderiam mesmo ser minimizada, a afirmação não pode ser generalizada. Poder-se-ia, por exemplo, encontrar resultados opostos, com acentuação da força de certas pressões.
À medida que vai crescendo a utilização de recursos culturais, vai aumentando cada vez mais a iniciação requerida dos jovens aos usos e costumes do grupo.
A predisposição dos bebês para a Iniciação cultural
A evolução cultural do homem se deu não só pelo desenvolvimento da inteligência e da capacidade simbólica, mas também pelo fortalecimento das vinculações afetivas, das trocas interacionais, dos compartilhamentos e da comunicação de um modo geral conforme inferências filogenéticas e estudos comparativos.
O desenvolvimento inicial dos bebês e principalmente das ligações entre adultos e bebês, podem ser elucidativos. Investigações minuciosas do comportamento de crianças pequenas em situações naturais têm revelado de modo contundente a presença de adaptações naturais para a interação social e para a formação de vinculações afetivas. As habilidades precoces de regulação social ficam ainda mais sugestivas da importância das relações sociais na evolução e no desenvolvimento, quando contrastadas à imaturidade geral dos comportamentos do recém-nascido.
Os bebês nascem com uma forte tendência para a vinculação afetiva.Em primeiro lugar, chama a atenção à capacidade de responder preferencialmente a sinais do contato afetuoso do adulto. Mesmo bebês prematuros reagem ao olhar e à fala carinhosa abrindo mais os olhos e mantendo-se em maior estado de atenção (Eckeman et al, 1994).
Claramente, há um processo de reconhecimento individual e de vinculação afetiva em andamento desde o início, revelado pela tendência à vinculação personalizada. Nas primeiras semanas de vida os bebês discriminam e preferem a voz e o odor de suas mães (MacFarlane, 1975; Schaal et al, 1980). Com 45 horas de vida discriminam a face da mãe (Field et al, 1984) e com 3 semanas, preferem-na em relação à de um estranho (Carpenter, 1973).Embora as reações típicas de apego e de medo de estranhos tendam a aparecer depois do oitavo mês (Bowlby, 1984), são surpreendentes os indicadores mais precoces: entre 8e 16semanasas crianças já reagem a estranhos e usam a mãe como base de segurança (Mizukami et aI, 1990).
O chamado sorriso verdadeiro, que ocorre por volt a da terceira semana de vida, é revelador. O próprio desenvolvimento inicial em idade tão tenra e, às vezes, em circunstâncias adversas, como em crianças cegas de nascença, é sugestivo do seu valor adaptativo.
Por sua vez, os estímulos eficazes para desencadear sorrisos não deixam dúvidas quanto à sua natureza. De início, o estímulo mais eficiente para produzi-lo é a fala afetuosa. Mais tarde, passa a ser o olhar dirigido; mesmo uma representação esquemática de olhos pode ser eficiente. Com o tempo, passa a ser desencadeado apenas por faces completas e, finalmente, apenas por rostos familiares (revisão em Otta, 1994).
Diversas formas de compartilhamentos básicos, típicos da interação humana, estão presentes desde o início. Recém-nascidos são capazes de igualar, sem ensaio, expressões faciais exibidas por outra pessoa, durante a interação (Meltzoff et aI, 1977,1983; Field et ai, 1982).Também ocorrem igualações vocais: bebês de dois meses emitem vocalizações simultâneas às da mãe, no mesmo tom. (Papousek et aI, 1984). Os bebês coordenam a movimentação geral do corpo, em ritmo com a fala que ouvem, o que tem sido chamado de sincronia interacional (Condon et ai, 1974).
A existência destes ecos, espelhos e danças biológicas, tem sido associada à aquisição da linguagem e à aculturação. Estes processos parecem representar canais de comunicação privilegiados, favorecedores de uma percepção compartilhada e de sincronizações e ajustes interacionais, ou mesmo de algum contágio ou igualamento emocional.
É neste contexto que se processa o desenvolvimento humano. Formam-se as ligações afetivas, determinadas pela quantidade e qualidade das interações –responder consistentemente aos sinais da criança e brincar adequadamente com ela são os fatores essencialmente determinantes da formação de laços afetivos (Bowlby, 1984). Ao mesmo tempo, ocorre o desenvolvimento cognitivo: a aquisição da linguagem, por exemplo, também se processa neste mesmo contexto interacional, de percepções compartilhadas, em associação a uma forte predisposição da criança para balbuciar e para igualar emissões vocais. Os bebês apresentam, desde cedo, alternações vocais do tipo diálogo, embora no terceiro mês as vocalizações simultâneas sejam duas vezes mais freqüentes e apareça em interações associadas aos níveis emocionais mais altos, como brincadeira alegre, raiva ou tristeza (Stem et aI, 1977). Neste ponto, pode-se relembrar que a fala tem um efeito sincronizador entre os indivíduos. Em alguns contextos, este efeito importa mais do que o próprio conteúdo da linguagem. Falas maternas tranqüilizadoras apresentam um perfil espectográfico típico, seja o que for que estiver sendo dito: há uma queda tonal no final da emissão, que convida ao aquietamento. Movimento oposto caracteriza o convite à brincadeira (Papousek et aI, 1984).
A crescente literatura sobre os bebês mostra o quanto à seleção natural atuou favorecendo ligações afetivas individualizadas e outras relações entre os indivíduos e que é neste contexto que a iniciação cultural se processa.
Tanto os indicadores ontogenéticos quanto os filogenéticos mostram que a cultura humana tornou-se possível através de um viver sócio-afetivo intensificado, de vínculos grupais fortalecidos e, entre muitas outras coisas, do estabelecimento, no jovem, de uma tendência para a educabilidade, busca de referenciamento no adulto significativo, compartilhamento e brincadeira.
O comportamento lúdico
A juvenilização da espécie, o aumento do período infantil e do brincar, mesmo na idade adulta, são de tal modo salientes que análises da importância adaptativa destas características ocupam um lugar central na maior parte das teorias (Morin, 1973).
A brincadeira tem sido analisada em termos de estratégias de história de vida (como em
Fagen, 1982). Benefícios imediatos quanto à aptidão não são nítidos e podem ser contraditórios; por exemplo, na medida em que brincar expõe o indivíduo a riscos, ocorre gasto de energia sem vantagens imediatas. Todavia, acredita-se que traga benefícios de longo prazo, decorrentes do aumento da flexibilidade comportamental e da redução das reações de medo.
O ambiente cultural da tribo de caça e coleta
A cultura dentro da qual se deu o processo de hominização foi a dos grupos de hominídeos que viviam de caça e coleta. A formação do Homo sapiens atual completou-se antes da chamada revolução agrícola e do surgimento dos aglomerados urbanos. As transformações culturais posteriores ao fim do modo de vida de caça e coleta constituem um problema à parte que não se deve confundir com as questões aqui discutidas. São muito recentes e instáveis, com aspectos contraditórios: a população cresce, mas surgem estranhos problemas de organização e relacionamento entre os indivíduos e entre grupos de indivíduos. O ser humano nasce num ambiente cultural diferente da pequena tribo auto-suficiente de caça e coleta para a qual está psicobiologicamente aparelhado.
As poucas sociedades contemporâneas de caçadores coletores podem fornecer algumas evidências do processo natural de iniciação cultural dos jovens. Este modo de vida tem sido considerado parte integrante do ambiente natural humano, pois começou a se organizar com o Homo habilis, estabeleceu-se mais nitidamente em Homo erectus e predominou até muito recentemente em Homo sapiens. Pode, portanto, ser considerado como o berço evolutivo do homem moderno, o contexto para o qual este foi selecionado e para o qual exibe adaptações naturais.
Dos vários estudos realizados com alguns destes povos, é possível concluir que, nesse meio, ao conviver intensamente com um grupo social estável, cerca de 30 pessoas, uma família estendida, a criança tem, de sobra, oportunidades de interação, de estabelecimento de vínculos e de brincadeira exploratória. O contato com o bebê é intenso, a amamentação é contínua e o desmame tardio. Na coleta, o bebê é mantido junto ao corpo da mãe, que responde às suas inquietações mais sutis; mantido em posição vertical, tem contato social e acesso ao mundo adulto facilitado.Está sempre presente no palco da ação significativa de seu grupo: coleta, alguns episódios de caça, lida com instrumentos e toda a intensa vida social do bando em tomo destes eventos (Konner, 1981; Sorenson, 1979; Bruner, 1976).
A ausência de instrução formalizada chama a atenção. O aprender ocorre por exposição contínua e por interesse próprio. Todos os elementos significativos da vida do grupo aparecem na brincadeira. Os adultos estão sempre muito disponíveis, afetivos e convivem intensamente com os jovens: brincam e dançam juntos, sentam-se juntos para muitas atividades ou em tomo da fogueira, cantam e contam estórias.Este envolvimento mútuo e as predisposições naturais da criança para aprender com as figuras de apego parecem garantir, neste modo de vida, o desenvolvimento e o domínio do repertório típico do adulto.
A Inteligência humana é um recurso cultural
A evolução natural humana foi marcada por uma adaptação natural via cultura.
Indicadores filogenéticos e ontogenéticos de como esta adaptação se processou revelam
bem mais do que um aumento da inteligência.
Uma análise mais minuciosa da própria natureza da inteligência já mostra que nem o próprio processo psicológico subjacente é estritamente cognitivo, e nem a funcionalidade pela qual ela foi selecionada é estritamente voltada à solução racional de problemas.
Há um reconhecimento cada vez maior da necessidade de se considerar a inteligência como um processo inseparável de outros. Fala-se em inteligência emocional, embora em cada uso isto possa significar coisas diferentes. Os trabalhos de Damásio (1996) ilustram um destes casos.A partir de estudos de alguns distúrbios neurológicos, esse autor esboçou uma teoria sobre a biologia da razão, em oposição ao dualismo razão e sentimento, através da análise de comprometimentos de raciocínio decorrentes de lesões pré-frontais cujo efeito mais notável é a perda ou a atenuação de sentimentos e emoções.
Estes passam então a ser entendidos como parte essencial dos processos de raciocínio e de tomada de decisões, indo-se além da idéia de efeitos recíprocos entre cognição e emoção.
Questionamentos sobre para que serve a inteligência, também podem levar a conclusões inesperadas, embora, à primeira vista, esta formulação possa até parecer sem sentido.
Costumamos colocar a inteligência acima de qualquer suspeita como o traço mais adaptativo que conseguimos imaginar para a solução de toda a sorte de problemas, e tê-Ia em tão alta conta, que nem sempre visualizamos seus custos, problemas e limitações.
A própria raridade nos fornece uma pista: já que muitos animais se adaptam via aprendizagem individual e, pelo menos alguns deles, vivem em grupos sociais, por que esta intensificação da inteligência não ocorreu em outras espécies? Este problema é um desafio pouco reconhecido pelos estudiosos da área. As tentativas de entender a raridade da inteligência levam a considerações sobre custos e benefícios, sobre a real funcionalidade da inteligência e sobre os mecanismos da evolução. Talvez os riscos envolvidos sejam altos. O preço da inteligência pode ser a indecisão sem fim (Foley, 1996), ou a desintegração dos comportamentos organizados instintivamente (Barkow, 1983).Pode ser que para funcionar aumentando a aptidão, este traço dependa de um complexo co-adaptado muito amplo e de uma série de circunstâncias evolucionárias.
Quanto à funcionalidade, a busca de correlações entre inteligência e os fatores associados ao modo de vida das espécies, apesar de todos os problemas metodológicos dos estudos comparativos, pode ser esclarecedora.Dois tipos de fatores têm sido apontados (Foley, 1996).
Ambientes naturais ecologicamente mais complexos parecem exercer pressão seletiva maior sobre a evolução da inteligência. O argumento parece funcionar bem em muitos casos, como na comparação de carnívoros com herbívoros. Aplica-se, também, à comparação entre espécies de mesma ordem. Assim, chimpanzés, que evoluíram em um contexto ecologicamente mais complicado do que os gorilas, pelo menos do ponto de vista alimentar, apresentam uma inteligência mais desenvolvida. Porém, este fator nem sempre parece ser o principal determinante. Fica difícil entender a superioridade da inteligência primata, em comparação com a dos carnívoros, em função dos desafios ambientais na obtenção de recursos. Não se pode dizer que o ambiente dos primatas seja ecologicamente mais complicado, como explicação para a sua inteligência diferenciada.
A sociabilidade é também apontada como um fator importante na evolução da inteligência (Humphrey, 1976). A complexidade das relações sociais explicaria potencialmente a evolução do cérebro, grupo social entendido como envolvendo reconhecimento individual, interações consistentes no tempo e no espaço, sendo as associações baseadas em familiaridade e parentesco. O fluxo dos relacionamentos exigiria constante processamento de informações recíprocas quanto a comportamentos e expectativas. O cérebro teria evoluído para resolver problemas sociais. Não faltam evidências da complexidade da vida social de primatas (Byme et ai, 1986). Parece também haver correlação direta entre tamanho típico do grupo social e tamanho do neocórtex (Dunbar, 1992).
Os aspectos mais complexos da cultura também têm base psicobiológica
Nem sempre as funções adaptativas das estruturas simbólicas existentes nas culturas são nítidas. Ao contrário, quando analisadas do ponto de vista de seus conteúdos, segundo uma lógica funcional, podem parecer desajustadas. Em alguns casos, chegam a ser entendidas como sub-produtos de outras capacidades selecionadas, o que, se correto, tornaria a análise funcional mais complicada. Entretanto, estas estruturas simbólicas têm sido mais razoavelmente consideradas como promotoras de sobrevivência em sociedade pela facilitação da co-adaptação entre os indivíduos (ver Rindos, 1986).
Sincronizações e induções afetivas e motivacionais permeiam as interações em geral.
Presentes nas interações cotidianas individuais, também parecem estar na essência de práticas sociais grupais. Situações sociais típicas, tais como as da dança, da música, do canto conjunto, parecem refletir estes mesmos processos de sincronização e de coesão do grupo via atividade simultânea partilhada (Eibl- Eibesfeldt, 1989).
Concebe-se a estrutura sócio-cultural como produto de cérebros moldados pela seleção e, portanto, ligada às propensões comportamentais, atitudes, medos e ansiedades dos indivíduos. Por isso, práticas culturais, rituais e crenças não podem ser entendidas sem que a natureza desses indivíduos também o seja. Os mitos devem ser vistos como um processo de criação contínua, elaborados coletivamente, representando as maneiras de lidar com as cognições e emoções vividas pelos indivíduos, com o sexo, com o ambiente natural e com a morte e a vida. Segundo Hinde (1987), refletem, afetam, e fazem parte do complexo conjunto de interações entre os indivíduos e suas relações, e as condições gerais da sociedade em que vivem.
*Original, bem como referências em:
Marcadores:
Biologicamente Cultural,
Homem e Sociedade,
Leitura Complementar
TEORIA DA EVOLUÇÃO
Quando falamos em evolução biológica, geralmente o primeiro nome que nos vem à mente é o de Charles Darwin. Entretanto, não podemos atribuir todos os méritos a ele, já que Alfred Wallace também havia percebido muitos dos aspectos que Darwin apontou em suas observações que guardou, basicamente em segredo, por mais de vinte anos. Apenas quando Wallace enviou a Darwin seus manuscritos – devemos nos lembrar que este voltou da expedição bastante reconhecido como cientista - é que ele foi impulsionado a publicar suas ideias. Seguindo o conselho de amigos, a teoria foi revelada com a autoria dos dois, em 1858.
O diferencial de Darwin era o conjunto de evidências e argumentos a favor da evolução que possuía. Este fato, somado à sua posição de destaque no meio científico e à publicação do livro “A origem das espécies por meio da seleção natural, ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida”, é o que faz com que, na maioria das vezes, apenas ele seja lembrado.
Naquela época, os mecanismos de hereditariedade e mutação não eram conhecidos e, dessa forma, temos a teoria sintética da evolução (ou neodarwinismo) como uma versão aprimorada desses princípios desenvolvidos por Darwin e Wallace.
Agora que já sabemos quem são os autores, vamos conhecer os aspectos que consistem nesta teoria:
- Em qualquer grupo de espécies, todos os indivíduos possuem ancestrais em comum, em algum momento da história evolutiva. Assim, são descendentes destes, com modificações: resultado da seleção natural.
- Indivíduos da mesma espécie, mesmo que parentes próximos, possuem variações entre si: resultado de mutações e/ou reprodução sexuada. Algumas dessas são hereditárias, ou seja, podem ser transmitidas para a geração seguinte.
- A limitação na disponibilidade de recursos faz com que indivíduos de uma população lutem, diretamente ou indiretamente, por esses e pela sua sobrevivência. Dessas variações, algumas podem ser vantajosas neste sentido, permitindo que alguns, neste cenário, se destaquem e outros não. Esses últimos podem não sobreviver e, tampouco, reproduzirem-se.
- Aqueles que sobrevivem (os mais aptos), podem transmitir à prole tal característica que permitiu sua vitória, caso seja hereditária.
- Esse processo, denominado seleção natural, resulta na adaptação de determinados indivíduos ao ambiente, frente a outros não-adaptados, e também no surgimento de novas espécies.
A seleção natural é bastante parecida com a artificial, só que essa última é o resultado de ações humanas (diretas ou indiretas) sobre determinado organismo. A penicilina, por exemplo, foi bastante usada há algumas décadas como principal agente de combate a bactérias e, atualmente, não é eficaz no tratamento de algumas doenças: consequência da seleção das bactérias resistentes, em razão do uso indiscriminado dessa substância.
Por Mariana Araguaia
Graduada em Biologia
Equipe Brasil Escola
Extraído de:
O diferencial de Darwin era o conjunto de evidências e argumentos a favor da evolução que possuía. Este fato, somado à sua posição de destaque no meio científico e à publicação do livro “A origem das espécies por meio da seleção natural, ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida”, é o que faz com que, na maioria das vezes, apenas ele seja lembrado.
Naquela época, os mecanismos de hereditariedade e mutação não eram conhecidos e, dessa forma, temos a teoria sintética da evolução (ou neodarwinismo) como uma versão aprimorada desses princípios desenvolvidos por Darwin e Wallace.
Agora que já sabemos quem são os autores, vamos conhecer os aspectos que consistem nesta teoria:
- Em qualquer grupo de espécies, todos os indivíduos possuem ancestrais em comum, em algum momento da história evolutiva. Assim, são descendentes destes, com modificações: resultado da seleção natural.
- Indivíduos da mesma espécie, mesmo que parentes próximos, possuem variações entre si: resultado de mutações e/ou reprodução sexuada. Algumas dessas são hereditárias, ou seja, podem ser transmitidas para a geração seguinte.
- A limitação na disponibilidade de recursos faz com que indivíduos de uma população lutem, diretamente ou indiretamente, por esses e pela sua sobrevivência. Dessas variações, algumas podem ser vantajosas neste sentido, permitindo que alguns, neste cenário, se destaquem e outros não. Esses últimos podem não sobreviver e, tampouco, reproduzirem-se.
- Aqueles que sobrevivem (os mais aptos), podem transmitir à prole tal característica que permitiu sua vitória, caso seja hereditária.
- Esse processo, denominado seleção natural, resulta na adaptação de determinados indivíduos ao ambiente, frente a outros não-adaptados, e também no surgimento de novas espécies.
A seleção natural é bastante parecida com a artificial, só que essa última é o resultado de ações humanas (diretas ou indiretas) sobre determinado organismo. A penicilina, por exemplo, foi bastante usada há algumas décadas como principal agente de combate a bactérias e, atualmente, não é eficaz no tratamento de algumas doenças: consequência da seleção das bactérias resistentes, em razão do uso indiscriminado dessa substância.
Por Mariana Araguaia
Graduada em Biologia
Equipe Brasil Escola
Extraído de:
Marcadores:
Alfred Wallace,
Charles Darwin,
Homem e Sociedade,
Teoria da Evolução
NATUREZA, CULTURA E COMPORTAMENTO HUMANO
(Carolina Cantarino)
No início da década de 1990, o geneticista italiano Luici Cavalli-Sforza apresentou um projeto científico audacioso: construir uma grande coleção de DNA de populações das mais diversas partes do mundo para a realização de estudos comparativos sobre variabilidade genética. Uma das justificativas do Projeto sobre a Diversidade do Genoma Humano (HGDP, sigla em inglês) seria o combate ao racismo e ao etnocentrismo, já que demonstraria as afinidades genéticas entre os mais diversos grupos culturais.
A proposta gerou polêmica e foi bastante questionada por povos indígenas e organizações não-governamentais, suscitando também debates na comunidade científica (principalmente entre antropólogos) sobre ética em pesquisa. Muitas lideranças indígenas questionaram a legitimidade das narrativas científicas que viriam a ser construídas a partir da pesquisa. Num congresso internacional de bioética, em 1996, um cientista do HGDP, ao explicar o projeto, teria afirmado que seria possível dizer aos povos pesquisados qual seria a sua "verdadeira" identidade. Uma ativista indígena rebateu: "eu sei quem eu sou - posso eu dizer a você quem você é?".
A discussão traz uma pergunta interessante: por que as evidências da genética são aceitas por certos grupos e vistas com extrema suspeita por outros? A resposta pode estar na disputa entre interpretações sobre a realidade social na qual estão presentes elementos históricos, sociais e políticos. Nesse caso, a disputa gira em torno da legitimidade da biologia para tratar de questões culturais. Qual seria a natureza do comportamento humano: biológica ou cultural?
Natureza e cultura
A biologia e as ciências sociais (particularmente a antropologia) apresentam concepções distintas sobre o que seria natural e o que seria cultural no comportamento humano. Essas concepções variaram historicamente no interior dessas disciplinas, a partir de modelos e perspectivas de diferentes autores.
De maneira geral, para os antropólogos, a cultura seria aquilo que especifica a condição humana. Os mais radicais acreditam que a biologia não desempenha nenhum papel na determinação do comportamento humano. Para os biólogos, os seres humanos evoluíram dos primatas - tal como preconizou Darwin - e essa relação filogenética serviria como justificativa, para alguns, para se considerar o Homo sapiens como apenas mais uma dentre outras espécies animais.
Mas a biologia e as ciências sociais também sempre estiveram, historicamente, em diálogo. A antropologia é reconhecida enquanto ciência no final do século XIX. Surgem, nesse contexto, no âmbito dessa disciplina, teorias como o evolucionismo, que se apropria de um modo muito particular do darwinismo. Autores como Lewis Morgan e E. B Tylor acreditavam que a unidade da espécie humana permitiria estabelecer uma "escala de civilização" - nela, as culturas diferentes da européia seriam classificadas como sendo "inferiores", menos "evoluídas" e tidas como sobrevivência daquilo que seriam fases anteriores do desenvolvimento humano. Através da evolução, as culturas "atrasadas" poderiam, um dia, alcançar o estágio no qual se encontravam as culturas "mais desenvolvidas". A evolução cultural caminharia, assim, numa única direção: do simples ao complexo, do irracional para o racional.
Outras teorias racistas nasceram no âmbito das ciências humanas no final do século XIX, tendo em comum a hierarquização daqueles que eram considerados diferentes. O conceito de " raça" enquanto um grupo biológico distinto ao qual corresponderiam certos atributos morais surge nesse cenário: a espécie humana consistiria num conjunto de diferentes "raças" identificadas através do fenótipo e da anatomia e classificadas numa hierarquia entre "raças inferiores" e "superiores".
A chamada antropologia cultural surge no início do século XX nos Estados Unidos e derruba essa visão de que as diferenças biológicas determinariam as diferenças culturais. A idéia de uma evolução cultural também passa a ser questionada, na medida em que cada cultura teria sua história e seu valor particular. A cultura e a história - e não a "raça" - seria a causa das diferenças entre as populações.
Os chamados antropólogos culturalistas - Franz Boas, Margareth Mead, Ruth Benedict - acreditavam que a natureza humana seria caracterizada por componentes inatos e componentes aprendidos e transmitidos - tal como preconizado por Darwin. A cultura, ao introduzir proibições sexuais tais como o incesto, por exemplo, regularia os comportamentos embora os instintos continuassem presentes nos indivíduos. Do ponto de vista dessa antropologia os componentes considerados inatos no comportamento humano - como o sexo, instintos de agressividade e de competição - poderiam ser modificados. A cultura seria capaz de reprimir ou alterar esses comportamentos.
A antropologia culturalista norte-americana estava, portanto, em diálogo com a biologia - especialmente com o darwinismo. Atualmente, segundo o antropólogo Mauro de Almeida, antropólogo da Universidade Estadual de Campinas, esse diálogo com o darwinismo caracteriza uma área da antropologia bastante popular nos Estados Unidos: a antropologia física. "Nos Estados Unidos, é preciso lembrar que a antropologia se subdivide em quatro campos: a antropologia física, a antropologia cultural, a linguística e a arqueologia. A antropologia física é bastante popular nos departamentos de biologia", afirma o antropólogo.
Sociobiologia
Nos departamentos de biologia das universidades norte-americanas existe, também, uma área bastante popularizada: a sociobiologia. A chamada moderna síntese evolucionista dos anos 1930 e 1940 unificou a teoria darwiniana e a genética mendeliana. A genética se tornaria, assim, um dos campos mais dinâmicos da biologia evolutiva. Com a descoberta da estrutura do DNA, em 1953, a chamada "nova genética" é inaugurada, trazendo novos dilemas e discussões a respeito da natureza do comportamento humano e levando a alguns determinismos biológicos tais como a sociobiologia.
Em 1975, Edward Wilson publicou o livro Sociobiologia: a nova síntese. A sociobiologia é definida como o estudo das bases biológicas de qualquer comportamento social, seja o de animais e insetos, seja o comportamento humano. Sendo assim, Wilson propõe trazer as ciências sociais para o âmbito da moderna teoria evolutiva, focalizando as questões do comportamento sexual (da reprodução) e do parentesco.
Para Wilson, o sucesso reprodutivo individual - a transmissão dos genes - seria o principal objetivo do comportamento humano. Uma espécie de cálculo biológico guiaria os interesses dos indivíduos nas suas relações sociais. A seleção natural funcionaria, assim, em termos individuais. Mas como explicar a persistência de comportamentos altruístas nos seres humanos?
Para Wilson, os comportamentos altruístas dos indivíduos se restringiram àqueles que compartilham uma mesma herança genética, ou seja, os parentes consanguíneos. Desta maneira é que o indivíduo maximizaria a sua reprodução: ele seria capaz de se auto-sacrificar em nome daqueles que possuem os mesmos genes que ele. Nesse sentido, comportamentos tidos como culturais - tais como o nepotismo - seriam uma forma de se proteger os parentes, uma espécie de "solidariedade genética".
A variabilidade entre as culturas também será explicada pela sociobiologia. A mudança cultural é vista em analogia com a transmissão genética. Assim, as culturas também poderiam evoluir. Richard Dawkins, autor de O gene egoísta (1976), afima que as unidades da cultura - os chamados memes, em analogia aos genes - apresentam propriedades necessárias para sofrer a ação da seleção natural tais como reprodução, herança e variação (gerada pela mutação). As inovações culturais seriam análogas às mutações e sofreriam a ação de fatores seletivos, ou seja, algumas ficariam arraigadas na cultura e outras não. Essa seria a definição para a evolução cultural.
Porém, mesmo entre biólogos a aceitação desse tipo de idéia tem nuances. Para Marco Antônio Del Lama, professor de genética da Universidade Federal de São Carlos, a mudança cultural não pode ser explicada a partir da evolução biológica. Para ele, a evolução cultural seria "lamarckiana", ou seja, o comportamento, a língua e as peculiaridades que um indivíduo adquire durante a vida seriam transmitidos, através do aprendizado, para os seus descendentes ou para outros indivíduos. Como conseqüência, a mudança cultural poderia ocorrer muito mais rapidamente do que a evolução biológica e mudanças súbitas poderiam ocorrer numa única geração. A evolução cultural seria também muito mais intrincada do que a evolução biológica na medida em que as sociedades adotam os hábitos umas das outras.
O geneticista também lembra que, embora Dawkins tenha definido o "meme" como unidade de evolução cultural, seria muito difícil definir essas unidades tal como é possível com o gene. A seleção que orienta a mudança cultural seria uma escolha de características culturais as mais diversas.
Embora os mecanismos que explicam a mudança cultural sejam diferentes dos responsáveis pela evolução biológica, Marco Antônio Del Lama ressalta que "isso não significa que uma seja irrelevante para a outra: elas são distintas mas interdependentes". Segundo ele, as condições culturais das sociedades humanas têm influenciado e continuam a influenciar a evolução biológica. Um exemplo seria o fato de que a maior parte dos seres humanos deixa de produzir a síntese da enzima lactase (necessária para a digestão do leite) na infância, mas a prática cultural da criação animal e do consumo de leite levou à evolução de uma produção mais duradoura de lactase em muitas populações humanas.
Por outro lado, segundo o geneticista, a evolução biológica também poderia influenciar a evolução cultural. Um exemplo seria a percepção das cores: "a divisão do espectro de luz visível em cores verbalmente distinguíveis seguem padrões universais transculturais. Esses padrões são determinados pelo modo como os nossos olhos e cérebros codificam a informação visual, indicando que a estrutura de nosso sistema nervoso limitou a variação cultural na denominação das cores", afirma Del Lama.
Para Mauro Almeida, seria necessário lembrar, por exemplo, que muitos biólogos se apropriam do conceito de cultura para demonstrar a existência de comportamentos aprendidos e transmitidos entre os animais. A etologia, que estuda o comportamento dos primatas, seria um exemplo. O antropólogo diz que a etologia indicaria, portanto, a existência "de um movimento inverso que introduz a idéia de comportamentos aprendidos, não herdados, entre os animais, o que revelaria uma tendência de se borrar a fronteira entre o que seria natural e o que seria cultural", afirma.
A engenharia genética também contribuiria para essa diluição de fronteiras. Segundo Almeida, o discurso sociobiológico, por exemplo, que apregoa a natureza genética enquanto um destino inevitável, poderia, por essa via, ser questionado. Com a engenharia genética, o corpo passa a ser visto como uma máquina sujeita a alterações mediadas pela tecnologia: "A nova genética é um conhecimento científico que potencialmente pode ser aplicado na modificação do organismo, o que implicaria numa ação cultural sobre este organismo. Nesse sentido, a ação humana acaba sendo aquela que modifica as bases 'naturais' do corpo humano, confundindo-se mais uma vez as fronteiras entre o natural e o social", afirma o antropólogo.
No início da década de 1990, o geneticista italiano Luici Cavalli-Sforza apresentou um projeto científico audacioso: construir uma grande coleção de DNA de populações das mais diversas partes do mundo para a realização de estudos comparativos sobre variabilidade genética. Uma das justificativas do Projeto sobre a Diversidade do Genoma Humano (HGDP, sigla em inglês) seria o combate ao racismo e ao etnocentrismo, já que demonstraria as afinidades genéticas entre os mais diversos grupos culturais.
A proposta gerou polêmica e foi bastante questionada por povos indígenas e organizações não-governamentais, suscitando também debates na comunidade científica (principalmente entre antropólogos) sobre ética em pesquisa. Muitas lideranças indígenas questionaram a legitimidade das narrativas científicas que viriam a ser construídas a partir da pesquisa. Num congresso internacional de bioética, em 1996, um cientista do HGDP, ao explicar o projeto, teria afirmado que seria possível dizer aos povos pesquisados qual seria a sua "verdadeira" identidade. Uma ativista indígena rebateu: "eu sei quem eu sou - posso eu dizer a você quem você é?".
A discussão traz uma pergunta interessante: por que as evidências da genética são aceitas por certos grupos e vistas com extrema suspeita por outros? A resposta pode estar na disputa entre interpretações sobre a realidade social na qual estão presentes elementos históricos, sociais e políticos. Nesse caso, a disputa gira em torno da legitimidade da biologia para tratar de questões culturais. Qual seria a natureza do comportamento humano: biológica ou cultural?
Natureza e cultura
A biologia e as ciências sociais (particularmente a antropologia) apresentam concepções distintas sobre o que seria natural e o que seria cultural no comportamento humano. Essas concepções variaram historicamente no interior dessas disciplinas, a partir de modelos e perspectivas de diferentes autores.
De maneira geral, para os antropólogos, a cultura seria aquilo que especifica a condição humana. Os mais radicais acreditam que a biologia não desempenha nenhum papel na determinação do comportamento humano. Para os biólogos, os seres humanos evoluíram dos primatas - tal como preconizou Darwin - e essa relação filogenética serviria como justificativa, para alguns, para se considerar o Homo sapiens como apenas mais uma dentre outras espécies animais.
Mas a biologia e as ciências sociais também sempre estiveram, historicamente, em diálogo. A antropologia é reconhecida enquanto ciência no final do século XIX. Surgem, nesse contexto, no âmbito dessa disciplina, teorias como o evolucionismo, que se apropria de um modo muito particular do darwinismo. Autores como Lewis Morgan e E. B Tylor acreditavam que a unidade da espécie humana permitiria estabelecer uma "escala de civilização" - nela, as culturas diferentes da européia seriam classificadas como sendo "inferiores", menos "evoluídas" e tidas como sobrevivência daquilo que seriam fases anteriores do desenvolvimento humano. Através da evolução, as culturas "atrasadas" poderiam, um dia, alcançar o estágio no qual se encontravam as culturas "mais desenvolvidas". A evolução cultural caminharia, assim, numa única direção: do simples ao complexo, do irracional para o racional.
Outras teorias racistas nasceram no âmbito das ciências humanas no final do século XIX, tendo em comum a hierarquização daqueles que eram considerados diferentes. O conceito de " raça" enquanto um grupo biológico distinto ao qual corresponderiam certos atributos morais surge nesse cenário: a espécie humana consistiria num conjunto de diferentes "raças" identificadas através do fenótipo e da anatomia e classificadas numa hierarquia entre "raças inferiores" e "superiores".
A chamada antropologia cultural surge no início do século XX nos Estados Unidos e derruba essa visão de que as diferenças biológicas determinariam as diferenças culturais. A idéia de uma evolução cultural também passa a ser questionada, na medida em que cada cultura teria sua história e seu valor particular. A cultura e a história - e não a "raça" - seria a causa das diferenças entre as populações.
Os chamados antropólogos culturalistas - Franz Boas, Margareth Mead, Ruth Benedict - acreditavam que a natureza humana seria caracterizada por componentes inatos e componentes aprendidos e transmitidos - tal como preconizado por Darwin. A cultura, ao introduzir proibições sexuais tais como o incesto, por exemplo, regularia os comportamentos embora os instintos continuassem presentes nos indivíduos. Do ponto de vista dessa antropologia os componentes considerados inatos no comportamento humano - como o sexo, instintos de agressividade e de competição - poderiam ser modificados. A cultura seria capaz de reprimir ou alterar esses comportamentos.
A antropologia culturalista norte-americana estava, portanto, em diálogo com a biologia - especialmente com o darwinismo. Atualmente, segundo o antropólogo Mauro de Almeida, antropólogo da Universidade Estadual de Campinas, esse diálogo com o darwinismo caracteriza uma área da antropologia bastante popular nos Estados Unidos: a antropologia física. "Nos Estados Unidos, é preciso lembrar que a antropologia se subdivide em quatro campos: a antropologia física, a antropologia cultural, a linguística e a arqueologia. A antropologia física é bastante popular nos departamentos de biologia", afirma o antropólogo.
Sociobiologia
Nos departamentos de biologia das universidades norte-americanas existe, também, uma área bastante popularizada: a sociobiologia. A chamada moderna síntese evolucionista dos anos 1930 e 1940 unificou a teoria darwiniana e a genética mendeliana. A genética se tornaria, assim, um dos campos mais dinâmicos da biologia evolutiva. Com a descoberta da estrutura do DNA, em 1953, a chamada "nova genética" é inaugurada, trazendo novos dilemas e discussões a respeito da natureza do comportamento humano e levando a alguns determinismos biológicos tais como a sociobiologia.
Em 1975, Edward Wilson publicou o livro Sociobiologia: a nova síntese. A sociobiologia é definida como o estudo das bases biológicas de qualquer comportamento social, seja o de animais e insetos, seja o comportamento humano. Sendo assim, Wilson propõe trazer as ciências sociais para o âmbito da moderna teoria evolutiva, focalizando as questões do comportamento sexual (da reprodução) e do parentesco.
Para Wilson, o sucesso reprodutivo individual - a transmissão dos genes - seria o principal objetivo do comportamento humano. Uma espécie de cálculo biológico guiaria os interesses dos indivíduos nas suas relações sociais. A seleção natural funcionaria, assim, em termos individuais. Mas como explicar a persistência de comportamentos altruístas nos seres humanos?
Para Wilson, os comportamentos altruístas dos indivíduos se restringiram àqueles que compartilham uma mesma herança genética, ou seja, os parentes consanguíneos. Desta maneira é que o indivíduo maximizaria a sua reprodução: ele seria capaz de se auto-sacrificar em nome daqueles que possuem os mesmos genes que ele. Nesse sentido, comportamentos tidos como culturais - tais como o nepotismo - seriam uma forma de se proteger os parentes, uma espécie de "solidariedade genética".
A variabilidade entre as culturas também será explicada pela sociobiologia. A mudança cultural é vista em analogia com a transmissão genética. Assim, as culturas também poderiam evoluir. Richard Dawkins, autor de O gene egoísta (1976), afima que as unidades da cultura - os chamados memes, em analogia aos genes - apresentam propriedades necessárias para sofrer a ação da seleção natural tais como reprodução, herança e variação (gerada pela mutação). As inovações culturais seriam análogas às mutações e sofreriam a ação de fatores seletivos, ou seja, algumas ficariam arraigadas na cultura e outras não. Essa seria a definição para a evolução cultural.
Porém, mesmo entre biólogos a aceitação desse tipo de idéia tem nuances. Para Marco Antônio Del Lama, professor de genética da Universidade Federal de São Carlos, a mudança cultural não pode ser explicada a partir da evolução biológica. Para ele, a evolução cultural seria "lamarckiana", ou seja, o comportamento, a língua e as peculiaridades que um indivíduo adquire durante a vida seriam transmitidos, através do aprendizado, para os seus descendentes ou para outros indivíduos. Como conseqüência, a mudança cultural poderia ocorrer muito mais rapidamente do que a evolução biológica e mudanças súbitas poderiam ocorrer numa única geração. A evolução cultural seria também muito mais intrincada do que a evolução biológica na medida em que as sociedades adotam os hábitos umas das outras.
O geneticista também lembra que, embora Dawkins tenha definido o "meme" como unidade de evolução cultural, seria muito difícil definir essas unidades tal como é possível com o gene. A seleção que orienta a mudança cultural seria uma escolha de características culturais as mais diversas.
Embora os mecanismos que explicam a mudança cultural sejam diferentes dos responsáveis pela evolução biológica, Marco Antônio Del Lama ressalta que "isso não significa que uma seja irrelevante para a outra: elas são distintas mas interdependentes". Segundo ele, as condições culturais das sociedades humanas têm influenciado e continuam a influenciar a evolução biológica. Um exemplo seria o fato de que a maior parte dos seres humanos deixa de produzir a síntese da enzima lactase (necessária para a digestão do leite) na infância, mas a prática cultural da criação animal e do consumo de leite levou à evolução de uma produção mais duradoura de lactase em muitas populações humanas.
Por outro lado, segundo o geneticista, a evolução biológica também poderia influenciar a evolução cultural. Um exemplo seria a percepção das cores: "a divisão do espectro de luz visível em cores verbalmente distinguíveis seguem padrões universais transculturais. Esses padrões são determinados pelo modo como os nossos olhos e cérebros codificam a informação visual, indicando que a estrutura de nosso sistema nervoso limitou a variação cultural na denominação das cores", afirma Del Lama.
Para Mauro Almeida, seria necessário lembrar, por exemplo, que muitos biólogos se apropriam do conceito de cultura para demonstrar a existência de comportamentos aprendidos e transmitidos entre os animais. A etologia, que estuda o comportamento dos primatas, seria um exemplo. O antropólogo diz que a etologia indicaria, portanto, a existência "de um movimento inverso que introduz a idéia de comportamentos aprendidos, não herdados, entre os animais, o que revelaria uma tendência de se borrar a fronteira entre o que seria natural e o que seria cultural", afirma.
A engenharia genética também contribuiria para essa diluição de fronteiras. Segundo Almeida, o discurso sociobiológico, por exemplo, que apregoa a natureza genética enquanto um destino inevitável, poderia, por essa via, ser questionado. Com a engenharia genética, o corpo passa a ser visto como uma máquina sujeita a alterações mediadas pela tecnologia: "A nova genética é um conhecimento científico que potencialmente pode ser aplicado na modificação do organismo, o que implicaria numa ação cultural sobre este organismo. Nesse sentido, a ação humana acaba sendo aquela que modifica as bases 'naturais' do corpo humano, confundindo-se mais uma vez as fronteiras entre o natural e o social", afirma o antropólogo.
AMALA e KAMALA
Amala e Kamala, também conhecidas como "as meninas lobo", foram duas crianças selvagens encontradas na Índia no ano de 1920. A primeira delas tinha um ano e meio e faleceu um ano mais tarde. Kamala, no entanto, já tinha oito anos de idade, e viveu até 1929.
Em 1920, o reverendo Singh encontrou, em uma caverna, duas crianças que viviam entre lobos. Suas idades presumíveis eram de 2 e 8 anos. Deram-lhes os nomes de Amala e Kamala, respectivamente. Após encontrá-las, o rev. Singh levou-as para o orfanato que mantinha na cidade de Midnapore. Foi lá que ele iniciou o penoso processo de socialização das duas meninas-lobo. Elas não falavam, não sorriam, andavam de quatro, uivavam para a lua e sua visão era melhor à noite do que de dia. Amala, a mais jovem, morreu um ano após ser encontrada. Kamala viveu durante oito anos na instituição que a acolheu,humanizando-se lentamente.Ela necessitou de seis anos para aprender a andar e pouco antes de morrer só tinha um vocabulário de 50 palavras.Atitudes afetivas foram aparecendo aos poucos. Ela chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se apegou lentamente ás pessoas que cuidaram dela e ás outras crianças com as quais viveu.
Controvérsias
Devido a muitas diferentes versões, nenhuma delas sustentava nenhuma testemunha outra senão o próprio Reverendo Singh, onde persistem consideráveis controvérsias relacionadas com a veracidade da história. A maioria dos cientistas consideravam Amala e Kamala crianças com retardamento mental e defeitos congenitais. O "mito" de ter sido criadas por lobos é uma antiga concepção Indiana para explicar o comportamento animalesco de crianças abandonadas com defeitos congenitais.
Estudos Recentes
De acordo com o francês cirurgião Serge Aroles, o caso de Amala e Kamala é a farsa mais escandalosa relacionada a crianças selvagens. Em seu livro L'Enigme des enfants-loup (2007), Aroles descreve sua pesquisa acerca do caso.
Ele varreu arquivos e fontes desconhecidas oficialmente e concluí: O diário original o qual Singh dizia ter escrito "dia após dia durante a vida das duas garotas-lobas" é falso. Ele foi escrito na Índia depois de 1935, seis anos após a morte de Kamala. (O manuscrito original é mantido na divisão de manuscritos da biblioteca dos Estados Unidos do Congresso em Washington, D.C.).
A foto mostrando as duas garotas-lobas andando de quatro, comendo carne crua, e outros, foram tiradas em 1937, depois da morte das garotas. As fotos, na verdade, mostram duas garotas de Midnapore posando a pedido de Singh. O corpo e rosto da garota nas fotos são totalmente diferentes do corpo e rosto de Kamala, como se pode ver em suas verdadeiras fotos. De acordo com o médico doutor responsável pelo orfanato, Kamala não tinha nenhuma das anomalias inventadas por Singh, tais como dentes longos e pontudos, locomoção de quatro com articulações rígidas, visão noturna com emissão de um brilho azul intenso a partir de seus olhos, durante a noite, etc. De acordo com diversos depoimentos confiáveis coletados em 1951-1952, Singh costumava bater em Kamala para fazê-la agir como descrito na frente de visitantes. A fraude foi desenvolvida para ganho financeiro.
Aroles mostra cartas entre Singh e o Professor Robert M. Zingg, nas quais Zingg expressa sua crença no valor financeiro da estória. Depois de suas publicações do diário de Singh, Zingg enviou US$500 para Singh, que estava desesperadamente precisando de dinheiro para manter seu orfanato. Futuramente, foi comprovado medicalmente que Kamala tinha defeitos mentais, afetada pela síndrome de Rett.
Conteúdo extraído de http://pt.wikipedia.org/wiki/Amala_e_Kamala
Mais sobre "crianças selvagens" em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Kaspar_Hauser
http://pt.wikipedia.org/wiki/Oxana_Malaya
http://www.feralchildren.com/en/showchild.php?ch=kamala
Em 1920, o reverendo Singh encontrou, em uma caverna, duas crianças que viviam entre lobos. Suas idades presumíveis eram de 2 e 8 anos. Deram-lhes os nomes de Amala e Kamala, respectivamente. Após encontrá-las, o rev. Singh levou-as para o orfanato que mantinha na cidade de Midnapore. Foi lá que ele iniciou o penoso processo de socialização das duas meninas-lobo. Elas não falavam, não sorriam, andavam de quatro, uivavam para a lua e sua visão era melhor à noite do que de dia. Amala, a mais jovem, morreu um ano após ser encontrada. Kamala viveu durante oito anos na instituição que a acolheu,humanizando-se lentamente.Ela necessitou de seis anos para aprender a andar e pouco antes de morrer só tinha um vocabulário de 50 palavras.Atitudes afetivas foram aparecendo aos poucos. Ela chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se apegou lentamente ás pessoas que cuidaram dela e ás outras crianças com as quais viveu.
Controvérsias
Devido a muitas diferentes versões, nenhuma delas sustentava nenhuma testemunha outra senão o próprio Reverendo Singh, onde persistem consideráveis controvérsias relacionadas com a veracidade da história. A maioria dos cientistas consideravam Amala e Kamala crianças com retardamento mental e defeitos congenitais. O "mito" de ter sido criadas por lobos é uma antiga concepção Indiana para explicar o comportamento animalesco de crianças abandonadas com defeitos congenitais.
Estudos Recentes
De acordo com o francês cirurgião Serge Aroles, o caso de Amala e Kamala é a farsa mais escandalosa relacionada a crianças selvagens. Em seu livro L'Enigme des enfants-loup (2007), Aroles descreve sua pesquisa acerca do caso.
Ele varreu arquivos e fontes desconhecidas oficialmente e concluí: O diário original o qual Singh dizia ter escrito "dia após dia durante a vida das duas garotas-lobas" é falso. Ele foi escrito na Índia depois de 1935, seis anos após a morte de Kamala. (O manuscrito original é mantido na divisão de manuscritos da biblioteca dos Estados Unidos do Congresso em Washington, D.C.).
A foto mostrando as duas garotas-lobas andando de quatro, comendo carne crua, e outros, foram tiradas em 1937, depois da morte das garotas. As fotos, na verdade, mostram duas garotas de Midnapore posando a pedido de Singh. O corpo e rosto da garota nas fotos são totalmente diferentes do corpo e rosto de Kamala, como se pode ver em suas verdadeiras fotos. De acordo com o médico doutor responsável pelo orfanato, Kamala não tinha nenhuma das anomalias inventadas por Singh, tais como dentes longos e pontudos, locomoção de quatro com articulações rígidas, visão noturna com emissão de um brilho azul intenso a partir de seus olhos, durante a noite, etc. De acordo com diversos depoimentos confiáveis coletados em 1951-1952, Singh costumava bater em Kamala para fazê-la agir como descrito na frente de visitantes. A fraude foi desenvolvida para ganho financeiro.
Aroles mostra cartas entre Singh e o Professor Robert M. Zingg, nas quais Zingg expressa sua crença no valor financeiro da estória. Depois de suas publicações do diário de Singh, Zingg enviou US$500 para Singh, que estava desesperadamente precisando de dinheiro para manter seu orfanato. Futuramente, foi comprovado medicalmente que Kamala tinha defeitos mentais, afetada pela síndrome de Rett.
Conteúdo extraído de http://pt.wikipedia.org/wiki/Amala_e_Kamala
Mais sobre "crianças selvagens" em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Kaspar_Hauser
http://pt.wikipedia.org/wiki/Oxana_Malaya
http://www.feralchildren.com/en/showchild.php?ch=kamala
Marcadores:
Amala e Kamala,
Crianças Lobo,
Homem e Sociedade
COESÃO
1. O que é coesão?
Leia o texto a seguir completando mentalmente as lacunas
1. O papa João Paulo II disse ontem, dia de seu 77º aniversário, que seu desejo
é "ser melhor". ................. reuniu-se na igreja romana de Ant'Attanasio com
um grupo de crianças, uma das quais disse: "No dia do meu aniversário minha mãe sempre pergunta o que eu quero.E você, o que quer? ................. respondeu: "Ser melhor". Outro menino perguntou a ..................... que presente gostaria de ganhar neste dia especial. "A presença das crianças me basta", respondeu ............................ . Em seus aniversários, ...............
costuma compartilhar um grande bolo, preparado por irmã Germana, sua cozinheira polonesa, com seus maiores amigos, mas não sopra as velinhas, pois este gesto não faz parte das tradições de seu país, a Polônia. Os convidados mais freqüentes a compartilhar nesse dia a mesa com................ no Vaticano são o cardeal polonês André Marie Deskur e o engenheiro Jerzy Kluger, um amigo judeu polonês de colégio. Com a chegada da primavera, .............. parece mais disposto. .............. deve visitar o Brasil na primeira quinzena de outubro.
Agora complete as lacunas com
• o aniversariante
• O Pontífice
• João Paulo II
• O Sumo Pontífice
• O Santo Padre
• o Papa
Como você pode constatar, a palavra "papa" foi substituída várias vezes pelas palavras e expressões acima indicadas. Essas substituições evitam a repetição pura e simples da mesma palavra e propiciam o desenvolvimento contínuo ou o encadeamento semântico do texto, na medida em que se recupera numa frase ou passagem um termo ou idéia presente em outra.
O pronome "seu(s)" também recupera semanticamente a expressão "papa João Paulo II", assim como "este gesto" recupera "sopra as velinhas"; "nesse dia", o "dia do aniversário do Papa".
Assim, um texto não é uma unidade constituída por uma soma de sentenças ou por um amontoado caótico de palavras e frases. Os enunciados, os segmentos do texto estão estritamente interligados entre si; há conexão entre as palavras, entre as frases, entre os parágrafos e as diferentes partes. Há encadeamento semântico.
Diz-se, pois, que um texto tem COESÃO quando seus vários elementos estão organicamente articulados entre si, quando há concatenação entre eles.
2. Mecanismos de coesão
A língua possui amplos recursos para realizar a coesão. Eis os principais.
2.1 Coesão por referência
Exemplo:
João Paulo II esteve em Porto Alegre.
Aqui, ele disse que a Igreja continua a favor do celibato.
Onde "aqui" retoma "Porto Alegre", e "ele" retoma "João Paulo II".
Os elementos de referência não podem ser interpretados por si mesmos; remetem a outros itens do texto, necessários a sua interpretação.
São elementos de referência os pronomes pessoais (ele,ela, o, a, lhe, etc.), possessivos (meu, teu, seu, etc.), demonstrativos (este, esse aquele, etc.) e os advérbios de lugar (aqui, ali, etc.).
2.2 Coesão por elipse
Exemplo:
João Paulo II esteve em Porto Alegre. Aqui, disse que a Igreja continua a favor do celibato.
Onde = a João Paulo II, ou seja, o leitor, ao ler, ao ler o segmento B, se depara com o verbo disse e, para interpretar seu sujeito, tem que voltar ao segmento A e descobrir que quem disse foi João Paulo II.
2.3 Coesão lexical
2.3.1 Coesão lexical por sinônimo
Exemplo:
João Paulo II esteve em Porto Alegre.
Na capital gaúcha, o papa disse que a Igreja continua a favor ....
Onde "Porto Alegre" = "capital gaúcha" e 'João Paulo II" = "papa"
A coesão lexical permite àquele que escreve manifestar sua atitude em relação aos termos, Compare as versões:
João Paulo II esteve em Porto Alegre. Aqui, Sua Santidade disse que a Igreja ...
João Paulo II esteve ontem em Varsóvia. Lá, o inimigo do comunismo afirmou ...
Rui Barbosa, na sua magistral conferência sobre Oswaldo Cruz, em 1917, nos dá lições acabadas da arte da sinonímia.
Santo Presente
(Zero Hora, 19/05/1997)
Para dizer febre amarela, por exemplo, empregou todas estas expressões sinônimas: vômito negro, a praga amarela, estigma desastroso, contágio brasileiro, o mesmo flagelo, germe amarílico, a tenaz endemia, a prega, a terrível doença, o contágio homicida, calamidade exterminada, a devoradora calamidade, a maligna enfermidade, essa desgraça, a terrível coveira, infecção xantogênica, esse contagio fatal ... nada menos que dezessete formas e recursos para evitar a repetição enfadonha.
Referindo-se aos ratos, eis a série por ele excogitada: rataria, rasteira e abjeta família, esses vilíssimos roedores, essa espécie roaz, ralé inumerável, raça insaciável dos murídeos.
Mencionando o fato da morte assim resolve Rui o problema da não repetição de termos: a cólera-mórbus deu morte ... a peste negra roubou 25 milhões de indivíduos à Europa ... dessa calamidade apenas escaparam um terço dos habitantes ... o número dos sepultados excede o dos sobreviventes ... de vinte mal se salvam duas pessoas ... no Hotel-Dieu expiram quinhentos ... para servirem de sepulcrário aos corpos que nos cemitérios já cabem ... Paris registra cinqüenta, Londres cem mil óbitos ... A Itália perde a metade de sua população ... vinte cinco milhões, pelo menos, desaparecem ... se diz haver arrebatado ao gênero humano cem milhões de vidas. Onze recursos de sinonímia num trecho de 34 linhas apenas!
(LEITE, Ulhoa Cintra Marques. "Novo Manual de Redação e Estilo", Rio de Janeiro, 1953)
A substituição de um nome próprio por um nome comum se processa muitas vezes mediante a antonomásia. Trata-se de um recurso que expressa um atributo inconfundível de uma pessoa, de uma divindade, de um povo, de um país ou de uma cidade. Veja os exemplos.
Castro Alves - O Poeta dos Escravos
Gonçalves Dias - O Cantor dos Índios
José Bonifácio - O Patriarca da Independência
Simon Bolívar - O Libertador
Rui Barbosa - O Águia de Haia
Jesus cristo - O Salvador, o nazareno, o Redentor
Édipo - O Vencedor da Esfinge
Átila - O Flagelo de Deus
Aquiles - O Herói de Tróia
D. Quixote - O Cavaleiro de Triste Figura
Cuba - A Pérola das Antilhas
Veneza - A rainha do Adriático
Jerusalém - O Berço do Cristianismo
Egito - O Berço dos Faraós
Ásia - O Berço do Gênero Humano
Leônidas - O Herói das Termópilas
Sólon - O Legislador de Atenas
Moisés - O Legislador dos Judeus
Hipócrates - O Pai da Medicina
Heródoto - O Pai da História
José de Alencar - O Autor de Iracema
Raimundo Correa - O Autor de As Pombas
Vênus - A Deusa da Beleza
2.3.2 Coesão lexical por hiperônimoe
Muitas vezes, neste tipo de coesão, utilizamos sinônimos superordenados ou hiperônimos, isto é, palavras que correspondem ao gênero do termo a ser retomado.
Exemplo:
Gênero
Mesa móvel
Faca talher
Termômetro instrumento
Computador equipamento
Enceradeira eletrodoméstico
Exemplo:
Acabamos de receber 30 termômetros clínicos.
Os instrumentos deverão ser encaminhados ao Departamento de Pediatria.
2.3.3 Coesão lexical por repetição do mesmo item
Exemplo:
O papa viajou pelo Brasil.
O papa reuniu nas capitais grande multidão de admiradores.
2.4 Coesão por substituição
A coesão por substituição consiste na colocação de um item num lugar de outro segmento.
Exemplo:
O papa ajoelhou-se. As pessoas também.
O papa é a favor do celibato. Mas eu não penso assim.
O papa ajoelhou-se. Todos fizeram o mesmo.
3. Observação de textos
Melhor do que teorizar sobre o assunto, com definições e classificações, é OBSERVAR os textos, conforme convicção exposta no capítulo "Como desenvolver a competência textual", que embasa a proposta deste "Guia de Produção Textual". A melhor escola é a leitura inteligente de textos modelares.
3.1 Leia o texto a seguir completando mentalmente as lacunas.
Uma cocheira para dois
David Coimbra - (Zero Hora, 28/3/1996)
Algumas pessoas têm a sensibilidade de um cavalo. São poucas, porém. Nem todas demonstram tanta ternura quanto ...................... que se equilibram sobre quatro ferraduras. E às vésperas de um grande acontecimento do mundo ...... , como o GP Bento Gonçalves do próximo domingo, eles se tornam ainda mais dados a melindres, tais são os mimos que lhes dispensam cavalariços, proprietários, jóqueis e treinadores. ........... são carentes. Nada pior para eles do que a solidão. Precisam de uma companhia. Qualquer uma. Outros ......... , se possível. Não sendo, se contentam com uma ovelha, um galo-de-briga, até um radinho de pilha. Em último caso, serve um espelho para lhes dar a ilusão de que não estão sós no escuro da cocheira. O ........ inglês Dani Angeli, três anos de idade, se afeiçoou especialmente a uma .................. que vive no Grupo de Cocheiras Clóvis Dutra, na Vila Hípica do Cristal.
Quando ............ não está por perto, ................ fica inquieto. Não dorme sem ela. Uma noite longe da ............... significa uma noite de insônia, de ranger nostálgico de dentes e patadas nervosas na forragem que lhe serve como leito. Ao raiar da manhã, o cavalariço o encontra irreconhecível, estressado, incapaz de enfrentar um dia de trabalho ............... e a ovelhinha dormem juntos, passeiam diariamente lado a lado e até quando ele viaja para disputar alguma prova fora do Estado ela precisa ir junto. Sem .................... Dani Angeli não é ninguém.
3.2 Agora observe os mecanismos de coeão.
3.2.1 - Coesão lexical por sinônimos
• Complete as lacunas com
- a companheira encaracolada
- a amiga lanuda
- ovelhinha
que substituem a palavra "ovelha".
• Complete as lacunas com
- puro sangue
- esses espíritos suscetíveis
- eqüino
que substituem a palavra "cavalo(s)".
3.2.2 - Coesão lexical por repetição do mesmo item
• Complete as lacunas com
- cavalos
- cavalos
- Dani Angeli
• Que efeito estilístico decorre da substituição de "ovelha" por "ovelhinha", "a companheira encaracolada" e "a amiga lanuda"? Em outras palavras, que atitude o autor do texto expressa mediante tais substituições?
3.2.3 - Coesão lexical por referência
• Circule os pronomes que se referem a "ovelha".
• Sublinhe os pronomes que se referem a "cavalo".
3.2.4 - Coesão por elipse
* Identifique os elipses em
- Precisam de uma companhia
- ... se contentam com uma ovelha ...
- ... não estão sós no escuro da cocheira
- Não dormem sem ela
- ... passeiam diariamente lado a lado
3.3 Complete mentalmente as lacunas do texto a seguir
Duas trajetórias nada edificantes
Augusto Nunes - (Zero Hora, 11/04/1996)
Não são poucas as semelhanças entre Alphonse Capone e Frnando Collor de Mello - a começar pelo prenome inspirado no mesmo antropônimo originário do Latim. ............ nasceram em famílias de imigrantes ........ teve ascendência italiana, o ............... descende de alemães, ... sempre apreciaram charutos, noitadas alegres, uísque, verões em Miami, ternos bem cortados, companhias suspeitas e largos espaços na imprensa.
............... quanto .................... chegaram ao poder muito jovens. E dele acabaram apeados por excesso de confiança: certos de que as asas da impunidade estariam eternamente abertas sobre seus crimes, não trataram com o devido zelo da remoção de todas as pistas.
Mais de 60 anos depois da prisão de Al Capone, Fernando Collor acaba de tropeçar na mesma armadilha que destruiria a carreira e a fortuna do ............. .
Dono de um prontuário escurecido por assassinatos, seqüestros, roubos e outras violências, ....... foi trancafiado num catre pela prática de um delito bisonho para um .................. do seu calibre: sonegação de impostos. Dono de uma folha corrida pontilhada de proezas nada edificantes, ............... enredou-se nesta semana na malha fina da Receita Federal. Depois de ter driblado acusações bem mais pesadas, ................ irá para a cadeia se não pagar R$ 8 milhões de impostos atrasados. Caso consiga o dinheiro, seguirá em liberdade. Mas terá fornecido outra evidência de que saiu do Palácio do Planalto muito mais rico do que era quando ali chegou.
3.4 Agora, complete as lacunas com
- o primeiro
- o segundo
- ambos
- um e outro
- Tanto o rei do crime em Chicago
- o ex-presidente
- Capone
- Collor
- legendário Scarface
- gânster
3.5 Observe, finalmente, o terceiro texto completando as lacunas com
- Ribamar
- O autor de "Marimbondos de Fogo"
- ex-presidente da República
- as beldades
Erva e marimbondos
(Zero Hora, 18/04/1996)
A rainha e princesas da Feira Nacional do Chimarrão, de Venâncio Aires, animaram a manhã do presidente do Senado, José Sarney, ontem.
.................... é convidado especial da Fenachim, que se realiza de 3 a 12 de maio.
Ciceroneadas pelo governador Antônio Britto, ................. entregaram um pacote de boa erva ao .......... .
Não será de grande proveito. Natural do Maranhão e eleito pelo Amapá, ...................... está mais acostumado com água de coco.
Original em http://www.pucrs.br/gpt/coesao.php
Leia o texto a seguir completando mentalmente as lacunas
1. O papa João Paulo II disse ontem, dia de seu 77º aniversário, que seu desejo
é "ser melhor". ................. reuniu-se na igreja romana de Ant'Attanasio com
um grupo de crianças, uma das quais disse: "No dia do meu aniversário minha mãe sempre pergunta o que eu quero.E você, o que quer? ................. respondeu: "Ser melhor". Outro menino perguntou a ..................... que presente gostaria de ganhar neste dia especial. "A presença das crianças me basta", respondeu ............................ . Em seus aniversários, ...............
costuma compartilhar um grande bolo, preparado por irmã Germana, sua cozinheira polonesa, com seus maiores amigos, mas não sopra as velinhas, pois este gesto não faz parte das tradições de seu país, a Polônia. Os convidados mais freqüentes a compartilhar nesse dia a mesa com................ no Vaticano são o cardeal polonês André Marie Deskur e o engenheiro Jerzy Kluger, um amigo judeu polonês de colégio. Com a chegada da primavera, .............. parece mais disposto. .............. deve visitar o Brasil na primeira quinzena de outubro.
Agora complete as lacunas com
• o aniversariante
• O Pontífice
• João Paulo II
• O Sumo Pontífice
• O Santo Padre
• o Papa
Como você pode constatar, a palavra "papa" foi substituída várias vezes pelas palavras e expressões acima indicadas. Essas substituições evitam a repetição pura e simples da mesma palavra e propiciam o desenvolvimento contínuo ou o encadeamento semântico do texto, na medida em que se recupera numa frase ou passagem um termo ou idéia presente em outra.
O pronome "seu(s)" também recupera semanticamente a expressão "papa João Paulo II", assim como "este gesto" recupera "sopra as velinhas"; "nesse dia", o "dia do aniversário do Papa".
Assim, um texto não é uma unidade constituída por uma soma de sentenças ou por um amontoado caótico de palavras e frases. Os enunciados, os segmentos do texto estão estritamente interligados entre si; há conexão entre as palavras, entre as frases, entre os parágrafos e as diferentes partes. Há encadeamento semântico.
Diz-se, pois, que um texto tem COESÃO quando seus vários elementos estão organicamente articulados entre si, quando há concatenação entre eles.
2. Mecanismos de coesão
A língua possui amplos recursos para realizar a coesão. Eis os principais.
2.1 Coesão por referência
Exemplo:
João Paulo II esteve em Porto Alegre.
Aqui, ele disse que a Igreja continua a favor do celibato.
Onde "aqui" retoma "Porto Alegre", e "ele" retoma "João Paulo II".
Os elementos de referência não podem ser interpretados por si mesmos; remetem a outros itens do texto, necessários a sua interpretação.
São elementos de referência os pronomes pessoais (ele,ela, o, a, lhe, etc.), possessivos (meu, teu, seu, etc.), demonstrativos (este, esse aquele, etc.) e os advérbios de lugar (aqui, ali, etc.).
2.2 Coesão por elipse
Exemplo:
João Paulo II esteve em Porto Alegre. Aqui, disse que a Igreja continua a favor do celibato.
Onde = a João Paulo II, ou seja, o leitor, ao ler, ao ler o segmento B, se depara com o verbo disse e, para interpretar seu sujeito, tem que voltar ao segmento A e descobrir que quem disse foi João Paulo II.
2.3 Coesão lexical
2.3.1 Coesão lexical por sinônimo
Exemplo:
João Paulo II esteve em Porto Alegre.
Na capital gaúcha, o papa disse que a Igreja continua a favor ....
Onde "Porto Alegre" = "capital gaúcha" e 'João Paulo II" = "papa"
A coesão lexical permite àquele que escreve manifestar sua atitude em relação aos termos, Compare as versões:
João Paulo II esteve em Porto Alegre. Aqui, Sua Santidade disse que a Igreja ...
João Paulo II esteve ontem em Varsóvia. Lá, o inimigo do comunismo afirmou ...
Rui Barbosa, na sua magistral conferência sobre Oswaldo Cruz, em 1917, nos dá lições acabadas da arte da sinonímia.
Santo Presente
(Zero Hora, 19/05/1997)
Para dizer febre amarela, por exemplo, empregou todas estas expressões sinônimas: vômito negro, a praga amarela, estigma desastroso, contágio brasileiro, o mesmo flagelo, germe amarílico, a tenaz endemia, a prega, a terrível doença, o contágio homicida, calamidade exterminada, a devoradora calamidade, a maligna enfermidade, essa desgraça, a terrível coveira, infecção xantogênica, esse contagio fatal ... nada menos que dezessete formas e recursos para evitar a repetição enfadonha.
Referindo-se aos ratos, eis a série por ele excogitada: rataria, rasteira e abjeta família, esses vilíssimos roedores, essa espécie roaz, ralé inumerável, raça insaciável dos murídeos.
Mencionando o fato da morte assim resolve Rui o problema da não repetição de termos: a cólera-mórbus deu morte ... a peste negra roubou 25 milhões de indivíduos à Europa ... dessa calamidade apenas escaparam um terço dos habitantes ... o número dos sepultados excede o dos sobreviventes ... de vinte mal se salvam duas pessoas ... no Hotel-Dieu expiram quinhentos ... para servirem de sepulcrário aos corpos que nos cemitérios já cabem ... Paris registra cinqüenta, Londres cem mil óbitos ... A Itália perde a metade de sua população ... vinte cinco milhões, pelo menos, desaparecem ... se diz haver arrebatado ao gênero humano cem milhões de vidas. Onze recursos de sinonímia num trecho de 34 linhas apenas!
(LEITE, Ulhoa Cintra Marques. "Novo Manual de Redação e Estilo", Rio de Janeiro, 1953)
A substituição de um nome próprio por um nome comum se processa muitas vezes mediante a antonomásia. Trata-se de um recurso que expressa um atributo inconfundível de uma pessoa, de uma divindade, de um povo, de um país ou de uma cidade. Veja os exemplos.
Castro Alves - O Poeta dos Escravos
Gonçalves Dias - O Cantor dos Índios
José Bonifácio - O Patriarca da Independência
Simon Bolívar - O Libertador
Rui Barbosa - O Águia de Haia
Jesus cristo - O Salvador, o nazareno, o Redentor
Édipo - O Vencedor da Esfinge
Átila - O Flagelo de Deus
Aquiles - O Herói de Tróia
D. Quixote - O Cavaleiro de Triste Figura
Cuba - A Pérola das Antilhas
Veneza - A rainha do Adriático
Jerusalém - O Berço do Cristianismo
Egito - O Berço dos Faraós
Ásia - O Berço do Gênero Humano
Leônidas - O Herói das Termópilas
Sólon - O Legislador de Atenas
Moisés - O Legislador dos Judeus
Hipócrates - O Pai da Medicina
Heródoto - O Pai da História
José de Alencar - O Autor de Iracema
Raimundo Correa - O Autor de As Pombas
Vênus - A Deusa da Beleza
2.3.2 Coesão lexical por hiperônimoe
Muitas vezes, neste tipo de coesão, utilizamos sinônimos superordenados ou hiperônimos, isto é, palavras que correspondem ao gênero do termo a ser retomado.
Exemplo:
Gênero
Mesa móvel
Faca talher
Termômetro instrumento
Computador equipamento
Enceradeira eletrodoméstico
Exemplo:
Acabamos de receber 30 termômetros clínicos.
Os instrumentos deverão ser encaminhados ao Departamento de Pediatria.
2.3.3 Coesão lexical por repetição do mesmo item
Exemplo:
O papa viajou pelo Brasil.
O papa reuniu nas capitais grande multidão de admiradores.
2.4 Coesão por substituição
A coesão por substituição consiste na colocação de um item num lugar de outro segmento.
Exemplo:
O papa ajoelhou-se. As pessoas também.
O papa é a favor do celibato. Mas eu não penso assim.
O papa ajoelhou-se. Todos fizeram o mesmo.
3. Observação de textos
Melhor do que teorizar sobre o assunto, com definições e classificações, é OBSERVAR os textos, conforme convicção exposta no capítulo "Como desenvolver a competência textual", que embasa a proposta deste "Guia de Produção Textual". A melhor escola é a leitura inteligente de textos modelares.
3.1 Leia o texto a seguir completando mentalmente as lacunas.
Uma cocheira para dois
David Coimbra - (Zero Hora, 28/3/1996)
Algumas pessoas têm a sensibilidade de um cavalo. São poucas, porém. Nem todas demonstram tanta ternura quanto ...................... que se equilibram sobre quatro ferraduras. E às vésperas de um grande acontecimento do mundo ...... , como o GP Bento Gonçalves do próximo domingo, eles se tornam ainda mais dados a melindres, tais são os mimos que lhes dispensam cavalariços, proprietários, jóqueis e treinadores. ........... são carentes. Nada pior para eles do que a solidão. Precisam de uma companhia. Qualquer uma. Outros ......... , se possível. Não sendo, se contentam com uma ovelha, um galo-de-briga, até um radinho de pilha. Em último caso, serve um espelho para lhes dar a ilusão de que não estão sós no escuro da cocheira. O ........ inglês Dani Angeli, três anos de idade, se afeiçoou especialmente a uma .................. que vive no Grupo de Cocheiras Clóvis Dutra, na Vila Hípica do Cristal.
Quando ............ não está por perto, ................ fica inquieto. Não dorme sem ela. Uma noite longe da ............... significa uma noite de insônia, de ranger nostálgico de dentes e patadas nervosas na forragem que lhe serve como leito. Ao raiar da manhã, o cavalariço o encontra irreconhecível, estressado, incapaz de enfrentar um dia de trabalho ............... e a ovelhinha dormem juntos, passeiam diariamente lado a lado e até quando ele viaja para disputar alguma prova fora do Estado ela precisa ir junto. Sem .................... Dani Angeli não é ninguém.
3.2 Agora observe os mecanismos de coeão.
3.2.1 - Coesão lexical por sinônimos
• Complete as lacunas com
- a companheira encaracolada
- a amiga lanuda
- ovelhinha
que substituem a palavra "ovelha".
• Complete as lacunas com
- puro sangue
- esses espíritos suscetíveis
- eqüino
que substituem a palavra "cavalo(s)".
3.2.2 - Coesão lexical por repetição do mesmo item
• Complete as lacunas com
- cavalos
- cavalos
- Dani Angeli
• Que efeito estilístico decorre da substituição de "ovelha" por "ovelhinha", "a companheira encaracolada" e "a amiga lanuda"? Em outras palavras, que atitude o autor do texto expressa mediante tais substituições?
3.2.3 - Coesão lexical por referência
• Circule os pronomes que se referem a "ovelha".
• Sublinhe os pronomes que se referem a "cavalo".
3.2.4 - Coesão por elipse
* Identifique os elipses em
- Precisam de uma companhia
- ... se contentam com uma ovelha ...
- ... não estão sós no escuro da cocheira
- Não dormem sem ela
- ... passeiam diariamente lado a lado
3.3 Complete mentalmente as lacunas do texto a seguir
Duas trajetórias nada edificantes
Augusto Nunes - (Zero Hora, 11/04/1996)
Não são poucas as semelhanças entre Alphonse Capone e Frnando Collor de Mello - a começar pelo prenome inspirado no mesmo antropônimo originário do Latim. ............ nasceram em famílias de imigrantes ........ teve ascendência italiana, o ............... descende de alemães, ... sempre apreciaram charutos, noitadas alegres, uísque, verões em Miami, ternos bem cortados, companhias suspeitas e largos espaços na imprensa.
............... quanto .................... chegaram ao poder muito jovens. E dele acabaram apeados por excesso de confiança: certos de que as asas da impunidade estariam eternamente abertas sobre seus crimes, não trataram com o devido zelo da remoção de todas as pistas.
Mais de 60 anos depois da prisão de Al Capone, Fernando Collor acaba de tropeçar na mesma armadilha que destruiria a carreira e a fortuna do ............. .
Dono de um prontuário escurecido por assassinatos, seqüestros, roubos e outras violências, ....... foi trancafiado num catre pela prática de um delito bisonho para um .................. do seu calibre: sonegação de impostos. Dono de uma folha corrida pontilhada de proezas nada edificantes, ............... enredou-se nesta semana na malha fina da Receita Federal. Depois de ter driblado acusações bem mais pesadas, ................ irá para a cadeia se não pagar R$ 8 milhões de impostos atrasados. Caso consiga o dinheiro, seguirá em liberdade. Mas terá fornecido outra evidência de que saiu do Palácio do Planalto muito mais rico do que era quando ali chegou.
3.4 Agora, complete as lacunas com
- o primeiro
- o segundo
- ambos
- um e outro
- Tanto o rei do crime em Chicago
- o ex-presidente
- Capone
- Collor
- legendário Scarface
- gânster
3.5 Observe, finalmente, o terceiro texto completando as lacunas com
- Ribamar
- O autor de "Marimbondos de Fogo"
- ex-presidente da República
- as beldades
Erva e marimbondos
(Zero Hora, 18/04/1996)
A rainha e princesas da Feira Nacional do Chimarrão, de Venâncio Aires, animaram a manhã do presidente do Senado, José Sarney, ontem.
.................... é convidado especial da Fenachim, que se realiza de 3 a 12 de maio.
Ciceroneadas pelo governador Antônio Britto, ................. entregaram um pacote de boa erva ao .......... .
Não será de grande proveito. Natural do Maranhão e eleito pelo Amapá, ...................... está mais acostumado com água de coco.
Original em http://www.pucrs.br/gpt/coesao.php
Marcadores:
Coesão,
Exercícios,
Interpretação e Produção de Textos
Assinar:
Comentários (Atom)